RSS

Estado Vs Produtores de Leite – Quem é o “Biggest Loser”?

14 Jan

Apesar de eu no meu blog habitualmente não comentar medidas da actualidade – por este ser um blog que se pretende com artigos “eternos” – surgiu nestes dias uma notícia que é grave demais para não ser comentada.

Noticiou-se no Público:

A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica [ASAE] já apreendeu 240 mil litros de leite, desde que pôs em em marcha, na quinta-feira, uma operação de fiscalização nas grandes superfícies comerciais, para averiguar denúncias dos produtores sobre a prática de dumping (venda abaixo do preço de custo pago aos produtores).

Comentários prévios:

  1. Modus Operandi. Para se averiguar a referida denúncia não era necessário a “apreensão” (é mais destruição, dado o prazo de validade…) do leite. A qualidade do produto não está em causa! Os hipermercados envolvidos só por este motivo, já têm razões para processar o Estado.
  2. Realidade do Desconto. É de referir que o desconto praticado pelo Continente não é sobre o leite apreendido. O cliente paga a totalidade do Preço e, se pretender o desconto, terá de voltar em datas posteriores.
  3. Hábito da prática. Estas são práticas promocionais comuns no mercado. Tratando-se de “marcas brancas” outro objectivo será levar o consumidor à experimentação do leite comercializado com a marca do distribuidor (“cross-selling”). Por vezes, produtores também oferecem produtos com semelhante objectivo e não lhe chamam “dumping”. Mas todos os outros produtores foram mais inteligentes e só os do leite exibiram este comportamento auto-destrutivo.
  4. Orçamento de Promoção da Lactogal. A Lactogal tem gasto bastante em publicidade para convencer consumidores a comprar o seu leite. Agora, como as promoções das “marcas brancas” aparentemente estão a ter melhores resultados (não deve ser leite da Lactogal…), fizeram queixa na ASAE. Maus perdedores! Se pudessem voltar atrás, provavelmente teriam usado grande parte desse orçamento para oferecer leite. É que, por exemplo, a oferta de 240 mil litros custaria-lhes apenas 72 mil euros. Quanto é que gastaram em publicidade??!
Mas isto são fait-divers. O que me choca mesmo é a análise a quem ganha e quem perde:
  • Base:
  1. Preço – O Preço pago ao Produtor vai ser agora menor do que o preço recebido do consumidor. Tal pode ser feito ou exigindo mais ao consumidor ou pagando menos aos produtores ou fazendo ambos os movimentos. Possivelmente o ajuste far-se-á mais pelo lado dos consumidores, que vão ter da pagar mais pelo Leite;
    Os consumidores vão pagar mais por um Bem Essencial!
  2. Quantidade – Como o preço ao Consumidor deverá aumentar, a quantidade vendida será consequentemente menor (não muito contudo, dado o carácter de Bem Essencial deste bem – o que tecnicamente se designa por inelasticidade da quantidade transaccionada face ao preço). Decorre necessariamente de aceitarmos a existência de curvas da Oferta e da Procura.
    Os Consumidores vão consumir menos Leite!
  • Quem ganha:
  1. Outros Vendedores de Leite. Devido à sua reduzida dimensão, os poucos que no comércio tradicional ainda vendiam leite não conseguiam vender este ao preço dos grandes distribuidores. Com a subida do preço ao consumidor na grande distribuição, alguns consumidores deixarão de se dirigir às grandes superfícies para comprar o leite. São dos maiores beneficiários com esta polémica e não me consta que sequer se tenham pronunciado.
  2. Publicitários. Como o Continente não pode agora atrair consumidores pela Campanhã dos descontos em cartão (sim, porque num futuro próximo se fizer o mesmo com fruta, pão ou varinhas mágicas, as mesmas acusações surgirão…), terá de pagar mais aos gráficos que desenham a Popota ou aos actores que levam milhares de Euros por cada spot. Pessoas necessitadas, certamente. Lá se vai a “Justiça Social” do Estado.
  3. Produtores de Outros Bens. Como o preço do leite sobe, os consumidores vão consumir outros bens. Geralmente outros líquidos: Sumos, Leite achocolatado, Cerveja, … depende do agregado familiar e do que eles decidem comprar para aquele lugar no frigorífico. E já agora medicação para doenças do ossos, no futuro. Se os produtores de leite não recuarem, pode-se esperar um aumento do custo com a saúde dos Portugueses em algumas áreas.
  • Quem perde:
  1. Consumidores. O Estado Português cobra a cada contribuinte alguns dos impostos mais asfixiantes da Europa (sobre os combustíveis, por exemplo) (sobre o Tabaco) (sobre o rendimento, se considerarmos que um Nórdico paga mais mas sobre um valor muito superior de ordenado) e proporciona dos benefícios dos mais baixos da Europa (veja-se a qualidade de serviços prestados, como a Educação, a Saúde e a Justiça). Agora, vem obrigar o mesmo contribuinte a pagar mais por um bem essencial!
    Ou sendo mais preciso: paga o mesmo pelo leite, mas perde o desconto para levar o que quisesse sem pagar no mês seguinte, até 75% da despesa deste mês em leite. Perde poder de compra no próximo mês, perde incentivo para levar leite hoje, ganha incentivo a levar algo menos saudável (e portanto perde saúde) e perde campanhas que o Continente lançaria no futuro se não fosse este episódio. Ganha o direito a assistir a mais Popota na televisão.
  2. Produtores de Leite. Se o Continente pagava 30 cêntimos e, para atrair consumidores, escolhia esse produto para vender mais barato, então vendia mais leite do que venderia em circunstâncias normais. Agora, os consumidores vão consumir menos leite, o Continente vai comprar menos leite e, dado o seu poder negocial, vai continuar a pagar 30 cêntimos aos produtores.
    Produtores vão continuar a receber 30 cêntimos por MENOS litros de leite.
    Na melhor das hipóteses, pois o Continente pode REDUZIR o preço pago aos produtores para passar a cumprir o que lhe é imposto pela ASAE.
  3. Distribuidores. O Continente tem agora menos opções para atrair consumidores, pois o seu orçamento de marketing deverá agora ir mais para publicidade em vez de ir para descontos mais fortes. Limitado assim na sua liberdade, melhor não fica. Na melhor das hipóteses fica igual, nos produtos em que a decisão seria sempre essa mesmo que pudesse oferecer descontos.
  4. Estado.  O Estado obtém assim o efeito de:
    A) Diminuir o consumo (e a produção) de leite;
    B) Substituir o consumo deste por bens menos saudáveis;
    C) Diminuir o preço pago aos produtores e/ou aumentar o preço cobrado aos consumidores;
    D) Promover a “justiça social” de cobrar mais aos consumidores de leite e canalizar os fundos de marketing da grande distribuição para as classes altas que estão no mercado publicitário;
    E) E tudo isto enquanto se prepara para gastar mais em cuidados de saúde no futuro.
    Parabéns Estado!
Enquanto isto, os produtores de leite, que foi quem desencadeou esta loucura, rejubila.
Talvez por ter sido quem mais perdeu (Preço recebido, Vendas desviadas para outros bens, …) e viver num mundo ao contrário.
Fica a pergunta: Quem perdeu mais, o Estado, os Produtores de Leite ou os Consumidores?
E o mais grave é que a população passa ao lado disto como se isto fosse normal, como se isto fosse Cuba. Ao que chegamos…
Este artigo é baseado num original n’O Insurgente: “Vacas Loucas na ASAE“.
 

Etiquetas: , ,

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: