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A Cereja de Galamba

04 Dez

https://i1.wp.com/www.vamworld.com/file/view/cherry.jpg/371253746/cherry.jpg

O artigo de Galamba no DE motivou um artigo meu chamado “João Galamba escolhe a sua cereja” que achei que endereçava o assunto de uma forma satisfatória, mas que recebeu o seguinte comentário (ver comentário #3, do “jhb”):

Confesso que ao ler este post esperava uma refutação ao tal relatório do FMI baseada em factos ou em algum erro metodológico, mas não, parece que o relatório está errado porque não chega às conclusões certas…

Ora, eu não comentei o artigo porque eu não tenho tempo para comentar todos os artigos publicados em todos os locais, mas já que o “jhb” acha que isso é relevante, vamos lá ver o referido relatório (e a respectiva conclusão, que talvez surpreenda quem só leu o estimulador e não o relatório original).

O relatório chama-se “Successful Austerity in the United States, Europe and Japan” e tem como autores Nicoletta Batini, Giovanni Callegari e Giovanni Melina. Podem ler aqui o Resumo:

The output effects of 2009 fiscal expansions have been hotly debated. But the discussion of fiscal multipliers is even more relevant now that several European countries have had to quickly retract their stimulus measures in an effort to regain market confidence. Using regime-switching VARs we estimate the impact of fiscal adjustment on the United States, Europe and Japan allowing for fiscal multipliers to vary across recessions and booms. We also estimate ex ante probabilities of recessions derived in association with different-sized and different types of consolidation shocks (expenditure- versus tax-based). We use these estimates to understand how consolidations should be designed to be most effective in terms of permanently and rapidly reducing a country’s debt-to-GDP ratio. The main finding is that smooth and gradual consolidations are to be preferred to frontloaded or aggressive consolidations, especially for economies in recession facing high risk premia on public debt, because sheltering growth is key to the success of fiscal consolidation in these cases.

Keywords: Fiscal consolidation, fiscal multipliers, growth-friendly fiscal policy

Críticas ao que disse o “especialista” da cafeína económica no Diário Económico:

  1. Ao contrário da ideia que fica do artigo no Diário Económico, a intenção dos autores do FMI – como pode ser lido directamente do resumo do estudo escrito pelos próprios autores – é o de estudar como reduzir o rácio dívida/PIB, e não como aumentá-lo com mais crédito.
  2. O autor do artigo no Diário Económico cita números (2.6 e 0.35) como multiplicadores de despesa que, na verdade, são os valores extremos de intervalos. Como podem facilmente consultar na página 55 do mesmo (imagem abaixo) esses são números muito escolhidos. Reparem que por exemplo o 2.6 é o valor apenas para o caso mais grave, o da França. E apenas durante recessões. E apenas durante o 1º trimestre. E sem considerar a diferença face ao valor de referência.
  3. O autor do artigo do Diário Económico ignora todos os momentos em que o estudo tem resultados contraditórios entre si e contraditórios com outros estudos, que os autores obviamente referem por todo o artigo, citando o resultado que lhe interessa e ignorando inúmeras frases que o deveriam fazer pensar. Por exemplo, reparem nestas frases:
    a) Pág 22: “Consolidations operated via cuts in spending during recessions tend to raise the real interest rate in the Euro Area, Japan and the United States. During a recession, a government spending cut (rise) puts downward pressure on prices and inflation, pushing up the real interest rate. This finding contradicts in part findings from simulated models (e.g. IMF, 2010)”
    b) Pág. 22: “Finally, for Japan, France and the euro area (in the expansion regime), a tax increase initially (and for France persistently) raises output marginally, although for Japan and the Euro Area the long-run cumulative output effect of tax hikes is negative as expected and as in other countries in our sample. One reason may be that the tax hike is accompanied by a rise in government expenditure in the short run that propels output momentarily ” [negrito dos autores]
    c) Pág. 32 (Conclusões): “Thus, a gradual fiscal adjustment, with a balanced composition of cuts to expenditure and tax increases boosts the chances that the consolidation will successfully (and rapidly) translate into lower debt-to-GDP ratios.”
  4. Em conclusão, o relatório é um artigo académico, cheio de hipóteses e resultados práticos contraditórios que não deve ser usado para debate político, muito menos assim: escolhendo números a belo prazer e ignorando as conclusões.
    Se for usado para debate político, então terão de ser referidas as conclusões que referi em 3c).
    Quem usa e abusa do relatório como o autor do artigo do DE usou deverá repensar a sua estratégia ou evitar publicá-la.

No fundo, deixar o dinheiro com o sector competitivo – que o gerou – em vez de retirá-lo e atribuí-lo a qualquer pessoa com menos jeito para o negócio mas com melhores ligações políticas… não vos parece, mesmo aos de vocês que não são economistas, que tem melhores resultados? Será que é preciso um curso de economia e longos meses de reflexão para achar que – de um ponto de vista matemático, e não considerando aqui questões sociais que talvez também fossem de considerar – mas como eu ia dizendo, de um ponto de vista matemático não vos parece que terá muito melhor resultado? Digam-me que sim, por favor.

Cherry de Galamba

 

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