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Carta Aberta às Personalidades

14 Dez

Mário Soares – um dos pais do Monstroo arauto da Austeridade no Século XX – e 70 auto-proclamadas “personalidades” “preocupadas com o país” escreveram uma “Carta Aberta ao Primeiro-Ministro“, o que motivou uma Carta Aberta a Mário Soares por parte da JSD e esta resposta do Adolfo Mesquita Nunes no jornal i.

Fica aqui a minha carta-resposta ao Mário Soares e restantes signatários:

Exma.s Personalidades,

Antes de mais, desejo agradecer a carta que se deram ao trabalho de escrever. A via escrita é sempre uma boa forma de comunicação, pois obriga a uma sistematização e uma concisão sempre úteis em debates como este, e será uma preciosa ajuda a um melhor entendimento do que está em causa.

Eu também estou muito preocupado com a vossa carta.

O primeiro signatário dessa carta foi não só o maior defensor da Austeridade do Século XX como também se afirma como o homem que convenceu o primeiro ministro em 2011 a pedir o apoio da Troika (Jornal i) (RTP).

Assim, depois do pedido de Sócrates – que já estava a ser preparado mas que havia sido negado até o limite, pois Sócrates não o queria fazer – foi feita uma análise muito ao de leve da situação Portuguesa, escapando por exemplo dívidas contratuais, empresariaisregionais ou “escondida“.

Em 2011, qualquer Português sabia da difícil situação. Uma situação que alguns previram, enquanto outros levaram com ela na cara por até à véspera terem garantido que não era preciso pedir ajuda. Nas eleições, houve quem prometesse dificuldades e quem prometesse facilidades. Ganharam os realistas, com um programa eleitoral que falava em cortes no Estado Social e em outros cortes de serviços que os proponentes não desejavam mas antes achavam ser absolutamente necessários.

Em 2012, muitas medidas não foram tomadas. Os eleitores foram defraudados porque muitos cortes ou não foram feitos ou foram feitos apenas em parte. Militares, Diplomatas, Grandes Agricultores, Funcionários da CP e Professores chantagearam o resto do país a mantê-los numa redoma isolada da crise, obrigando os 82,4% que nunca fizeram greve a pagar pelos seus “direitos adquiridos”. O governo, incapaz de impor a sua vontade aos mimados, teve de exceder os sacrifícios impostos aos do costume. Quem pode, sai.

Quem fica está farto. Não é já uma separação funcionários públicos versus privados. É uma separação direitos adquiridos versus precários. De Norte a Sul de Portugal, sente-se um clamor contra os Nogueiras, que nada ensinam e recebem “Muito Bom” na avaliação. Contra os Relvas, que usam as leis “Gago” para terem cursos que a outros custaram a tirar. Contra o Senhor Silva que não consegue gastar menos de 10.000 por mês. E, acima de tudo, contra os que aparecem na comunicação social todas as semanas a promover clamores que nunca têm a decência de pôr em prática – por exemplo, abdicando de metade das dezenas de funcionários a que têm “direito”.

Toda esta “austeridade” não é senão o começo. Para que se elimine o défice externo (sem ser via exportações de Ouro…), para que se obtenha superávite no Orçamento de Estado e nos das famílias, para que os Portugueses poupem para a sua reforma (que a Segurança Social não tem hipótese de garantir, dada a pirâmide demográfica), para que os recursos naturais não se exaurem rapidamente, para que as moedas não colapsem, muitos cortes terão de ser feitos – pelo Governo e pelas famílias – que farão os do passado recente serem recordados com saudade. O caminho tentado não é mais possível.

O Senhor Soares sabe-o. Já o disse no passado. Este populismo recente soa agora a falso. Soa a “vamos aproveitar ao máximo enquanto não estoura” e portanto não lhe fica nada bem. Tempos difíceis aproximam-se e ainda há quem não esteja preparado. Das “elites”, “personalidades” ou “artistas” esperava-se uma voz que ajudasse a compreensão da nossa difícil situação e da necessidade de ser virtuoso e poupado. Da vantagem da Igualdade de Oportunidades sobre a Igualdade de Resultados.

Vós, num fanatismo cego que recusa a evidência, estais a fazer caminhar o País para o abismo.

Perante estes factos, eu interpreto – e justamente – o crescente clamor que contra vós se ergue, como uma exigência, para que abdiquem, urgentemente, das regalias políticas que vêm obtendo, sob pena de, pelo interesse nacional, ser vosso dever retirar as consequências económicas que se impõem, poupando assim o País e os Portugueses ainda a mais graves e imprevisíveis consequências.

É indispensável mudar de postura para que os Portugueses retomem confiança e esperança no futuro.

PS: da presente o signatário dará conhecimento a todos os internautas interessados,

Porto, 11 de Dezembro de 2012

Se concordarem com o teor da carta, façam o favor de assinar a
Petição a pedir ao Mário Soares que abdique dos subsídios à sua Fundação.

– Anexos –

Lista dos Co-signatários:

  1. ADELINO MALTEZ (Professor Universitário-Lisboa)
  2. ALFREDO BRUTO DA COSTA (Sociólogo)
  3. ALICE VIEIRA (Escritora)
  4. ÁLVARO SIZA VIEIRA (Arquiteto)
  5. AMÉRICO FIGUEIREDO (Médico)
  6. ANA PAULA ARNAUT (Professora Universitária-Coimbra)
  7. ANA SOUSA DIAS (Jornalista)
  8. ANDRÉ LETRIA (Ilustrador)
  9. ANTERO RIBEIRO DA SILVA (Militar Reformado)
  10. ANTÓNIO ARNAUT (Advogado)
  11. ANTÓNIO BAPTISTA BASTOS (Jornalista e Escritor)
  12. ANTÓNIO DIAS DA CUNHA (Empresário)
  13. ANTÓNIO PIRES VELOSO (Militar Reformado)
  14. ANTÓNIO REIS (Professor Universitário-Lisboa)
  15. ARTUR PITA ALVES (Militar reformado)
  16. BOAVENTURA SOUSA SANTOS (Professor Universitário-Coimbra)
  17. CARLOS ANDRÉ (Professor Universitário-Coimbra)
  18. CARLOS SÁ FURTADO (Professor Universitário-Coimbra)
  19. CARLOS TRINDADE (Sindicalista)
  20. CESÁRIO BORGA (Jornalista)
  21. CIPRIANO JUSTO (Médico)
  22. CLARA FERREIRA ALVES (Jornalista e Escritora)
  23. CONSTANTINO ALVES (Sacerdote)
  24. CORÁLIA VICENTE (Professora Universitária-Porto)
  25. DANIEL OLIVEIRA (Jornalista)
  26. DUARTE CORDEIRO (Deputado)
  27. EDUARDO FERRO RODRIGUES (Deputado)
  28. EDUARDO LOURENÇO (Professor Universitário)
  29. EUGÉNIO FERREIRA ALVES (Jornalista)
  30. FERNANDO GOMES (Sindicalista)
  31. FERNANDO ROSAS (Professor Universitário-Lisboa)
  32. FERNANDO TORDO (Músico)
  33. FRANCISCO SIMÕES (Escultor)
  34. FREI BENTO DOMINGUES (Teólogo)
  35. HELENA PINTO (Deputada)
  36. HENRIQUE BOTELHO (Médico)
  37. INES DE MEDEIROS (Deputada)
  38. INÊS PEDROSA (Escritora)
  39. JAIME RAMOS (Médico)
  40. JOANA AMARAL DIAS (Professora Universitária-Lisboa)
  41. JOÃO CUTILEIRO (Escultor)
  42. JOÃO FERREIRA DO AMARAL (Professor Universitário-Lisboa)
  43. JOÃO GALAMBA (Deputado)
  44. JOÃO TORRES (Secretário-Geral da Juventude Socialista)
  45. JOSÉ BARATA-MOURA (Professor Universitário-Lisboa)
  46. JOSÉ DE FARIA COSTA (Professor Universitário-Coimbra)
  47. JOSÉ JORGE LETRIA (Escritor)
  48. JOSÉ LEMOS FERREIRA (Militar Reformado)
  49. JOSÉ MEDEIROS FERREIRA (Professor Universitário-Lisboa)
  50. JÚLIO POMAR (Pintor)
  51. LÍDIA JORGE (Escritora)
  52. LUÍS REIS TORGAL (Professor Universitário-Coimbra)
  53. MANUEL CARVALHO DA SILVA (Professor Universitário-Lisboa)
  54. MANUEL DA SILVA (Sindicalista)
  55. MANUEL MARIA CARRILHO (Professor Universitário)
  56. MANUEL MONGE (Militar Reformado)
  57. MANUELA MORGADO (Economista)
  58. MARGARIDA LAGARTO (Pintora)
  59. MARIA BELO (Psicanalista)
  60. MARIA DE MEDEIROS (Realizadora de Cinema e Atriz)
  61. MARIA TERESA HORTA (Escritora)
  62. MÁRIO JORGE NEVES (Médico)
  63. MIGUEL OLIVEIRA DA SILVA (Professor Universitário-Lisboa)
  64. NUNO ARTUR SILVA (Autor e Produtor)
  65. ÓSCAR ANTUNES (Sindicalista)
  66. PAULO MORAIS (Professor Universitário-Porto)
  67. PEDRO ABRUNHOSA (Músico)
  68. PEDRO BACELAR VASCONCELOS (Professor Universitário-Braga)
  69. PEDRO DELGADO ALVES (Deputado)
  70. PEDRO NUNO SANTOS (Deputado)
  71. PILAR DEL RIO SARAMAGO (Jornalista)
  72. SÉRGIO MONTE (Sindicalista)
  73. TERESA PIZARRO BELEZA (Professora Universitária-Lisboa)
  74. TERESA VILLAVERDE (Realizadora de Cinema)
  75. VALTER HUGO MÃE (Escritor)
  76. VITOR HUGO SEQUEIRA (Sindicalista)
  77. VITOR RAMALHO (Jurista) – que assina por si e em representação de todos os signatários)

Ena, ena, tantos especialistas em finanças públicas. Pilar de Rio Saramago, Pedro Abrunhosa, João Galamba, Joana Amaral Dias, Daniel Oliveira, Boaventura Sousa Santos, Adelino Maltez… Se eles concordam com Mário Soares, vou abandonar a Matemática, a Lógica e a História Económica e adaptar-me.

Carta Aberta a Mário Soares da JSD:

Ex.mo Presidente da República emérito e Pai da democracia ad eternum, Mário Soares,

Uma vez que é apologista da comunicação por carta aberta, enviamos a V. Ex. esta correspondência.

Um dos princípios pelos quais a JSD se vem batendo tem sido a solidariedade intergeracional. Ficamos contentes quando constatamos que, ao invés de infelizes empresas que discriminam contra a empregabilidade sénior, a comunicação social portuguesa mantém os seus palcos de escrita inalterados há décadas.

Como juventude partidária no terreno contactamos diariamente com a realidade da juventude e do seu crescente desagrado com o aparelho político. Dizem: “são todos iguais” e apontam para o estado económico como prova de um desgoverno colectivo passado. Aos falsos profetas que apelam a cenários alternativos catastróficos mas recusam aceitar a sua quota de responsabilidade, gostaríamos de relembrar as palavras do passado, nomeadamente do V. Programa do IX Governo Constitucional liderado por V.Exa.: “A crise é de tal modo grave que o combate a travar é de todos. (…) A crise traduz-se nisto: vivermos acima das nossas possibilidades, consumindo muito mais que produzimos. (…) É talvez tentador recusar cooperação a um governo que se não apoie. Mas não é disso que se trata. Se é lícito discordar e até democraticamente combater um Governo a que somos adversos, não é licita a recusa em apoiar um combate que está para lá das ideologias e dos partidos, porque se insere na defesa da democracia, da liberdade e da justiça social, que são património comum de todos os verdadeiros patriotas. Trata-se, em suma, de defender o País e o regime”.

E como consideramos que demagogia se combate com demagogia deixamos-lhe um conselho e um desafio: citando o seu amigo Rei de Espanha no pedido ao seu bom aluno Hugo Chavez, perguntamos mas agora em português “Porque não te calas?”; e deixamos-lhe o desafio de começar por dar o exemplo e abdicar de todos os apoios públicos e isenções fiscais à sua fundação, escusamo-nos de o fazer em relação à sua reforma e às restantes mordomias a que tem legítimo direito como ex Presidente da República.

Acreditamos que alguém tão experiente, daria uma melhor contributo ao país fazendo propostas concretas para cortar na despesa do Estado.

Ajude-nos a demonstrar que nem todos os políticos se regem pela demagogia barata. A democracia portuguesa assim o exige.

Atenciosamente,

A Juventude Social Democrata

Carta de Adolfo Mesquita Nunes:

Na semana passada, 70 personalidades lideradas por Mário Soares, quase todas de esquerda e dizendo-se intérpretes da vontade popular, escreveram uma carta ao primeiro-ministro exigindo-lhe mudança de políticas ou, em alternativa, a sua demissão.

Note-se, em primeiro lugar, a arrogância dos signatários da carta: consideram-se os justos representantes do clamor popular.

Não sabemos quem, de entre o povo, lhes passou o mandato popular. Nem sabemos de que forma ou em que momento foi esse mandato conferido. E não sabíamos – eu, pelo menos, não sabia – que o povo, nos seus milhões de vontades e aspirações, consegue formar uma vontade una, indivisível, totalitária, revelada aos 70 e por estes apropriada.

Sabemos apenas, ou não fosse a esmagadora maioria dos signatários de esquerda (o que oferece, como se sabe, o pressuposto da bondade e da identificação com o bem comum), que se sentem justos representantes do povo.

Eles é que sabem, os 70. Não foram eleitos, os 70; não foram a votos, os 70; não pediram mandato, os 70; nem receberam procuração, os 70. Mas isso são pormenores: eles é que sabem. Porque sim. Talvez por serem de esquerda.

Note-se, em segundo lugar, o desprezo, porque é disso que se trata, com que os signatários tratam a Constituição e, já agora, os portugueses (sim, os portugueses).

A Constituição tem regras sobre a nomeação e demissão do governo – regras que os signatários deviam conhecer, até porque andam sempre com a Constituição no verbo – e que de forma alguma autorizam uma espécie de conselho de sábios a arrogar-se o direito ou dever ou poder de determinar o momento a partir do qual um governo deve ser demitido ou pedir a sua demissão.

E essas regras pressupõem, basta lê–las, a democracia parlamentar. É o parlamento que representa, para o que ora nos interessa, a vontade popular. E é no parlamento que se formam as maiorias necessárias para manter ou não um governo.

Aquilo que os signatários da carta demonstram pelo parlamento e, por isso, pelos portugueses que o elegeram, não é outra coisa senão desprezo, como se o parlamento não servisse para nada ou, pior, como se o parlamento não representasse a vontade popular.

Serei só eu a considerar grave que haja deputados (sim, há deputados entre os signatários) a querer, através desta carta, obter algo que, negado nas urnas, nem sequer tentaram no parlamento?

Note-se, enfim, a displicência dos signatários.

Críticas, é só lê-las espalhadas pelos parágrafos da carta. Soluções alternativas, daquelas que se podem propor no parlamento, estilo faça-se x ou legisle-se no sentido y, é que está quieto. Mande-se abaixo o governo, porque sim e porque não é de esquerda. Para fazer o quê é que não se sabe. Parece que não é preciso e que basta dizer crescimento, crescimento, crescimento.

Esta carta, no consenso que arrogantemente pretende iludir e no espelho que procura ser da elite portuguesa, funciona afinal como paradoxo.

O país entrou em pré-bancarrota depois de décadas de irresponsabilidades que foram consentidas, toleradas e muitas vezes aplaudidas apenas porque embrulhadas num qualquer amanhã que canta, porventura ao gosto de alguns dos 70. Esta carta representa tudo o que Portugal foi e tudo o que, por três vezes na nossa história recente, nos levou a pedir ajuda externa.

Nada me move contra os 70 signatários. Sou admirador de uns, leitor compulsivo de alguns e até, orgulho-me, amigo de outros. Mas nem a admiração, nem o gosto nem a amizade me impedem de considerar que o caminho defendido pelos 70, na parte que tem de perceptível, procura a perpetuação de um modelo socialista que não consigo defender e que nos arruinou.

Jurista e deputado do CDS

 
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Publicado por em 14 de Dezembro de 2012 em Humor, Política, Portugal

 

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