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Carta Aberta a Álvaro Santos Pereira

20 Dez

Hélder Ferreira, n’O Insurgente:

Caro Álvaro,

Espero que esta te encontre de boa saúde a ti e aos teus. Nós por cá vamos andando embora a distância que nos separa de ti nos deixe em cuidados, sei que não te esqueces que existimos. Quanto mais não seja para que possas brincar aos legos com as empresas e assim. Adiante.

Quando em 2011 votei no Partido que te escolheu, fi-lo pela negativa. Achei e continuo a achar que era importante livrarmo-nos do pior Governo de que tenho memória. Votei sem expectativas que o Governo que viesse a seguir fosse menos socialista que o anterior mas que, ao menos, houvesse algum pragmatismo, algum bom senso, por pouco que fosse. De todos vocês acreditei que dois seriam melhorzinhos, tu e o Francisco José Viegas. Não que fossem mudar alguma coisa de fundamental, nunca me passou pela cabeça que fizesses o que se impõe – acabar com o Ministério da Economia – mas pronto, que não fizesses tanta asneira como os teus antecessores. Não diria que tens tido uma acção pior que eles mas também não vejo o que tem de melhor, bastando para isso descontar não haver dinheiro para grandes brincadeiras. Um aparte: não estava à espera que escolhessem socialistas radicais, dignos de uma versão soft da URSS como são os Ministros do CDS, mas enfim, continuando.

Como te lia com interesse antes de ires para o Governo e creio que ainda sabes que aquilo que escrevias mantém-se verdadeiro e dada a tua experiência como professor, queria pedir-te um favor: quando te cruzares nos corredores dos Ministérios com os tipos que se lembraram dos Decretos Lei 197/2012 e 198/2012, nomeadamente os Artigos 3º e 7º deste, os metesses numa sala, de frente para a parede com umas orelhas de burro. Se lhes deres com uma palmatória nas mãozinhas também agradeço. Porque são ignorantes. Ignorantes e incompetentes. Aposto singelo contra dobrado que nunca tiveram qualquer responsabilidade numa empresa, não fazem ideia nenhuma de logística, de facturas, de recebimentos, de tesourarias, de IVA. No fundo, não percebem de treta nenhuma. Não fazem a mínima ideia dos processos de gestão nas empresas, de como se organizam, do que as pessoas fazem.

Bem sei que tu és um gajo que sabe que o papel essencial das empresas é criar riqueza e aposto que os teus colegas e respectivos assessores dizem o mesmo. Aliás, vocês todos fartam-se de falar em criar condições para atrair investimento. Pois. Falar falam, só que o que fazem, que é o que interessa, é tratar as empresas como se o papel delas fosse pagar impostos, multas e coimas e prestar informação ao Estado. A criação de riqueza e de emprego, logo se vê, que isso não tem importância nenhuma. Por este caminho, ficam vocês e os funcionários a conversar uns com os outros. E levam os Deputados do Parlamento Europeu de bónus.
Repara numa piquena amostra: de acordo com os kafkianos Decreto Lei referidos, cada vez que emito uma factura (fazes ideia de quantas facturas são emitidas por dia por 370.000 empresas?) tenho que pedir um número à Administração Tributária via telefone (!) ou online ao que se segue o risco de ser multado, coimado e o diabo a quatro. As Notas de Crédito e Débito transformam-se num pesadelo digno do inferno de Dante. E nota: nós lá na empresa temos mais que fazer. Temos que negociar, comprar, vender, distribuir, pagar, receber, arrumar, etc. Carradas de coisas para fazer que no fim nos irão permitir pagar os impostos, as taxas e taxinhas que para o teu Governo são o alfa e o ómega da actividade empresarial. Tudo isto vem somar ao labirinto kafkiano que os vossos antecessores foram criando ao longo do tempo (e verdade seja dita, labirinto a que vocês já acrescentaram mais alguns percursos).

Entendo o louvável objectivo de combater a evasão fiscal e percebo a sanha por dinheiro que vos assola. Às vezes sinto que vocês já não vivem para outra coisa que não seja extorquir o mais que podem como se não houvesse amanhã, mas pronto, essa é outra conversa. Nada disto seria necessário se a vossa prática coincidisse com o discurso e se vissem o que até um calhau com olhos vê: simplifiquem pá! A evasão fiscal é o que é pela complicação do sistema fiscal, pela burocracia que nos põe a todos no papel do K. Isto é de loucos, pá!

Para terminar que isto já vai longo, sabes bem que o que estão a fazer, por exemplo, com aqueles dois Decreto Lei é acrescentar mais uma camada de burocracia que, como sabes também, é uma das duas ou três coisas que impede que a malta deste lado crie riqueza, acrescente capital à actividade e invista. Sabendo eu que tu sabes isto, o que sugeres que conclua?
Um abraço e as alheiras seguem no correio.

Hélder Ferreira. Profissão: desgraçado.

P.S. Se entretanto eu desistir (não me falta vontade) de ser escravizado por ti e pelos teus colegas logo aviso. Diz ao Gaspar que lhe mando cumprimentos mas não partilhes as alheiras com ele.

 

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