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Hasta siempre democracia!

28 Mar

Texto da minha amiga Elisabete Coutinho após mais uma visita à família na Venezuela:

A esquerda internacional enche a boca com as glórias da suposta «divisão igualitária de fortuna» que aconteceu na Venezuela chavista e odes ao morto que mal conhecem. Não sei que Venezuela visitaram. Ou melhor, visitaram a Venezuela como visitaram a Rússia comunista, a Cuba castrista e a China maoista: pelos manuais da propaganda quase alucinogénica que ainda circulam, a tentar vender aos ainda crentes no Estado intervencionista que o de cada um devia passar a ser de todos e que os paraísos terrenos são estes poços fundos do reconhecimento do esforço pessoal, onde o de muitos se converte em quase nada.

A Venezuela onde passei um mês, mais do que uma crise económica, sofre uma profunda crise social. Há petróleo a rodos, a cerveja é quase dada, a comida local abunda, há uma atividade comercial próspera, há centros comerciais onde avidamente se gastam os dólares levantados do cartão de crédito, como se a América fosse a miragem de todas as liberdades e glórias do bem-estar, e o dólar o colírio para todas as dores políticas.

A Venezuela que vi não tem conforto, não conhece o bem-estar, esqueceu a tranquilidade, sabe que o dia pode acabar com um tiro a entrar pela janela do carro ou com um familiar raptado numa estação de gasolina, e reclama, reclama, reclama, sonhando com saltar as fronteiras rumo a qualquer lado longe dali, com a cor política a dividir famílias e a matar amizades num povo tradicionalmente ameno de caráter.
Hugo Chavez minou a juventude venezuelana com a mesma arrogância que sempre o caracterizou; a educação oscila entre a verdade propagandista e a impossibilidade de uma discussão saudável e divergente com esta segunda geração nascida no chavismo, que se esquece que essa América sonhada admite que eu pense branco, e tu penses vermelho, e continuemos a sentar-nos à frente de uma pizza. Pintam-se de americanos com gorros de beisebol, com t-shirts dos Yankees, sonham com Blackberries e MacDonald’s, mas copiam o Grande Líder na forma como se expressam.

O venezuelano divide-se entre o trabalhador, sofrido, esforçado, esse que sobe os Andes com o gado ou a venda, o que está nas listas negras do chavismo e impedido de prestar qualquer serviço ao Estado, e o ressabiado social, a quem disseram que podia matar e roubar para se vingar das desigualdades do passado, e a quem a justiça vai fechando os olhos, e a política e o exército vão dando cargos. O mesmo que veste de vermelho as praças porque se sentiu protegido desde o início por este regime que agora ganha contornos de divino, e alimenta a crendice e a “santería” que se faz ver em encruzilhadas, nas atrozes estradas andinas, nas montanhas místicas onde supostamente guerreiros índios encarnaram santos que os fizeram liquidar o ocupador europeu.

O ocupador europeu, esse grande inimigo, sendo que todos querem ser mais brancos, mais europeus, mais ocidentalizados e menos venezuelanos, como se o tribalismo, os traços índios e até a própria identidade cultural venezuelana fossem uma vergonha. E Chavez representa a profunda vergonha que há nessa história que, gostem ou não, é a de um país feito de mestiçagem e escravatura. Contudo, estampa-se esse misticismo interesseiro nas notas que servem de moeda, onde apenas está permitido o imaginário do regime, composto por uma mistura de santos populares, heróis chavistas e o reencarnado Bolívar, agora menos europeu, mais escuro, mais revoltado e mais corrupto. Contraditório? É preciso visitar a Venezuela atual para perceber o significado de contradição, que ali é elevado a um ponto desconcertante.

Irónico país, o de Chavez, onde campos férteis e parques industriais nos remetem aos planos quinquenais soviéticos, onde as estradas se entopem durante horas de camiões que freneticamente nos fazem ver o consumo elevado ao extremo de tudo e mais alguma coisa, mas onde a sociedade tem feridas profundas que dificilmente se poderão curar. Como europeia, chocou-me profundamente aqueles momentos em que, no rádio e na televisão, esta voz autoritária e insolente se fazia ouvir e, mesmo para aqueles que a desligavam, se impunha em altifalantes pelas ruas.

A Venezuela não tem alternativa política. É um país condenado ao messianismo, ao endeusamento do ditador, que aumentará as fileiras de santos populares a quem se rogam mil pedidos, como o Che cubano passou de assassino impiedoso a San Ernesto de la Higuera. Com a sua morte precoce, Chavez cumpriu a sua missão: passou à história, a uma história que o vai dourar com a aura do grande líder progressista e justo, tão longe daquilo que foi realmente. Outro virá, a continuação de Deus, deste Deus implacável que ensombrará a Venezuela num destino pintado de vermelho por muitos anos e que começa a manifestar-se na mão ainda mais pesada e corrupta do presidente Maduro, fiel discípulo da escola castrista.

Para a oposição, resta o aprendiz de Messias cuja cor política ninguém conhece realmente. Radonski sofre de uma puerilidade política assustadora. Desconhece as manobras diplomáticas a nível internacional que lhe poderiam ter dado o fortalecimento estrutural de que necessitaria para repor a democracia. É pouco mais que um presidente da Junta de Freguesia na postura política – com todo o respeito por este cargo -, que um bolchevique desarmado na coragem e que um cossaco ébrio na agudez intelectual com que responde ao regime. Mas não se pode esperar muito mais: Radonski é um homem que renegou a sua própria religião, origem e cultura para se converter à última hora ao catolicismo, a fim de ser aceite por um país maioritariamente cristão, e que hasteia a bandeira dos avós mortos no Holocausto quando lhe convém. Um homem que muda de religião como quem muda de camisa não tem espinha dorsal.

Radonski defende o regresso dos privilégios dos outros, de uma classe social que é a sua e que se pavoneava pelas ruas de Caracas nos anos 60 e 70, a Paris da América Latina, fechando os olhos aos morros que se enchiam de uma classe trabalhadora que não acumulava os dólares que custavam uma vida digna. Os avós dos criminosos de hoje, portanto, sem que isso seja desculpa, embora tenha sido o leit motiv hasteado por Chavez para financiar com o petróleo toda uma classe social que vive de subsídios, privilégios e o direito a serem eternas vítimas protegidas pelo paternalismo estatal. A mesma para quem Chavez será sempre o representante de Cristo na terra, venha quem vier.

Só que o aprendiz de Messias, Radonski, é igualmente falso nas suas afirmações, incoerente e até medricas. Glorificou o suposto regresso do inimigo que já sabia morto. Porque consta-se – até na Venezuela – que as prisões cubanas são fétidas e não têm televisão. Radonski age de forma mais sub-reptícia ainda que o Grande Líder, que vociferava insultos contra quem o contrariava, e não permite nas suas redes sociais que se opine de forma diferente da sua. Experimentem levantar-lhe uma questão de fundo que seja essencial a um futuro governante e não obterão mais resposta do que ver a vossa pergunta apagada. Porque Radonski quer ser o Messias desta Venezuela em chamas, faz-se cobrir das bendições de um povo cada vez menos educado e mais dado à superstição, gosta que lhe elogiem o charme, a beleza, e uma suposta coragem que só tem quando o terreno é seguro e firme. É isto que tem na manga enquanto estratégia política. Nada de propostas sólidas nem de chamar a atenção do mundo para a perigosidade social e política de um país que, inevitavelmente, incomoda os gigantes progressistas ali ao lado, e que a Europa olha com exotismo e curiosidade, como quem vê um programa de TV sobre uma sociedade tribal exótica ao domingo à noite.

Porque o comunismo é e sempre será um problema dos outros, até que constatamos na terra deles que os outros afinal têm voz, olhos, medos, ambições, filhos e angústias como nós. Enquanto ex-militante do PCP, partido e ideologia que no final da adolescência percebi ser o caminho mais longo para o progresso, fica o meu testemunho, quase em forma de mea culpa para quem assim o quiser entender. Nunca me senti tão longe daquela que foi um dia a minha ideologia adolescente como quando vivi na pele e nos olhos das pessoas este tenebroso monstro chamado comunismo.

 

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