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Inês Gonçalves e o Síndrome de Estocolmo

15 Jun

Ora vamos lá a um pequeno exercício de argumentação, com um pouco de humor para estimular a leitura. Original a negrito.

Estudo no 12º ano, tenho 18 anos. Sou uma entre os 75 mil que têm o seu futuro a ser discutido na praça pública. – Não. O teu futuro vai ser decidido por ti. Dentro de algumas semanas, frente a várias folhas de exame. Isso que estás a tentar fazer chama-se “desresponsabilização” e apesar de provavelmente estares rodeada por uma miríade de pessoas que te incutem esse espírito também é tua responsabilidade aprenderes a assumires que o teu destino está nas tuas mãos. Chama-se a isso “crescimento”. Um dia compreenderás. Espero.

Dizem que sou refém! Dizem que me estão a prejudicar a vida! Todos falam do meu futuro, preocupam-se com ele, dizem que interessa, que mo estão a prejudicar… – Qualquer pessoa que te reduza as tuas opções te está a prejudicar. Mas a questão aqui é que é intencional. Basicamente, tu perdes para eles poderem fazer chantagem com outros num processo em que eles têm muito a ganhar (ou a não perder) e tu és apenas um objecto de arremesso. Vou elaborando mais ao longo do texto.

Ando há 12 anos na escola, na escola pública. – Os processadores de texto modernos permitem apagar repetições. Estou certo que um rapaz que perceba de computadores te pode explicar como o fazer.

Durante estes 12 anos aprendi. – Aprenderias mesmo que não estivesses na escola. Se tiveste filosofia como eu, podes concluir que esta minha chamada de atenção torna o teu argumento logicamente inútil.

Aprendi a ler e a escrever, aprendi as banalidades e necessidades que alguém que não conheci considerou que me seriam úteis no futuro. – Na verdade, teria sido melhor se essas decisões fossem descentralizadas. Para que percebas vou só dar um exemplo: se todos tivessem que ter o mesmo telemóvel ou a mesma roupa não achas que, mesmo que esse alguém fosse o mais sapiente do mundo, nunca acertaria no mais acertado para todos os teus colegas simultaneamente? Decisões centralizadas nunca serão as óptimas para todos.

Já naquela altura se preocupavam com o meu futuro. – Quem te disse isso? As pessoas movem-se por outros motivos. Repara: o que as pessoas querem é ter as suas necessidades satisfeitas. De amor, de sexo, de saúde, de serviços dos mais diversos. Algumas dessas coisas obtém-se por interacção livre e espontânea com outras pessoas. Outras delas exigem dinheiro. As pessoas que se “preocupam” (na verdade, os teus pais é que se preocupam) contigo fazem-no por 2 motivos: brio profissional e salário. Portanto cuidado com esse sentimento de que podes confiar em estranhos: só no dia em que realmente precisares de ajuda vais descobrir quem realmente se preocupa contigo. Espero que nunca venhas a estar nessa situação, pois garanto-te que não é uma sensação agradável.

Essas directivas eram-me passadas por pessoas, pessoas que escolheram como profissão o ensino, que gostavam do que faziam. – Da minha experiência, os professores gostam de ensinar. Mas com alunos atentos e que aprendem o que eles ensinam. E de preferência que se mostrem interessados e cooperantes. Como não conheço o teu caso, vou-te dar o meu. Em matemática eu tirava sempre excelente nos testes, do ciclo ao 12º. Mas com a idade desenvolvi um gosto – de reguila confesso – de corrigir os erros que os professores de matemática davam de modo um pouco gozão. Quando me apercebia do erro, não o dizia logo. Constatava a minha surpresa com o resultado final e obrigava o professor a fazer muitas contas antes de corrigir o erro. No teu ano – 12º – como eu sabia que tinha a entrada na faculdade mais ou menos garantida pelo lado das notas da secundária (claro que faltavam os exames, que era outra história), era um bocado sarcástico e fiquei só com 17 a matemática. Acho que a professora questionou um pouco a sua vocação com a nossa turma… Mas sim, genericamente concordo que o professores gostam do que fazem.

As pessoas que me ensinaram isso foram também aquelas que me ensinaram a importância do que está para além desses domínios e me alertaram para a outra dimensão que uma escola “a sério” deve ter: a dimensão cívica. – Tiveste mais sorte que eu quanto aos professores. No meu caso foram os meus pais.

Eu não fui ensinada por mágicos ou feiticeiros, fui ensinada por professores! – Uma das inúmeras vantagens do século em que vives.

Esses professores ensinaram-me a mim e a milhares de outros alunos a sermos também nós pessoas, seres pensantes e activos, não apenas bonecos recitadores! – Que bom. Não é sempre assim.

Talvez resida ai a minha incapacidade para perceber aqueles que se dizem tão preocupados com o meu futuro. – Outra vez: quem se preocupa com o teu futuro és tu e muito poucos mais. Olha eu por exemplo: eu não estou preocupado contigo. O que me motiva a mim é o bem-estar de mim e dos que me estão próximos. Claro que o nosso bem-estar – como dizia Mises, e eu sou um Misesiano – depende do bem-estar da sociedade como um todo e é daí que surge esta resposta. Com o objectivo de que pelo menos te leve a pensar que talvez os professores que fazem greve – e falo desses e não dos outros – tenham outros interesses em mente que não uma “preocupação”… “cívica” contigo e com os teus colegas.

Talvez resida no facto de não perceber como é que alguém pode pôr em causa a legitimidade da resistência de outrem à destruição do futuro e presente de um país inteiro! – Se fosse isso que estivesse em causa…

Onde mora a preocupação com o futuro dos meus filhos? Dos meus netos? Quem a tem? – Tu.

Onde morava essa preocupação quando cortaram os horários lectivos para metade e mantiveram os programas? – ‘Tás a ver as más decisões tomadas por decisores centrais?

Onde morava essa preocupação quando criaram os mega-agrupamentos? – Mais um bom exemplo.

Onde morava essa preocupação quando cortaram a acção social ou o passe escolar? – Ui, os decisores centrais só pensam em ti… mais um exemplo.

Onde mora essa preocupação quando parte dos alunos que vão a exame não podem sequer pensar em usá-lo para prosseguir estudos pois não têm posses para isso? – “Posses” parece um termo marxista… Essas tuas aulas de civismo foram dadas por professores formados onde?

Não somos reféns nessa altura? – Não.

E  a preocupação com o futuro dos meus professores? – A tua crença nos órgãos centrais do estado é comovente.

Onde morava essa preocupação quando milhares de professores foram conduzidos ao desemprego e o número de alunos por turma foi aumentado? – Portugal é dos países com mais professores por números de alunos…

Todas as atrocidades que têm sido cometidas contra nós, alunos, e contra a qualidade do ensino que nos é leccionado não pode ser esquecida nunca mas especialmente em momentos como este! – Sobre como aumentar a qualidade do ensino, já que mudas completamente de assunto, também te posso recomendar algumas boas leituras. Repara que esta pergunta nada tem a ver com o teu pedido para mais condições para os teus professores – qual Síndrome de Estocolmo – ou da tua confiança total nos decisores políticos, que é aceitável na tua idade mas que com algumas leituras poderias trabalhar em ultrapassar.

Os professores não fazem greve apenas por eles, fazem greve também por nós, alunos, e por uma escola pública que hoje pouco mais conserva do que o nome. Fazem greve pela garantia de um futuro! – Já tinhas dado indícios do Síndrome de Estocolmo antes, não precisavas de repisar o conceito.

De facto, Crato tem razão quando diz que somos reféns, engana-se é na escolha do sequestrador! – Quem fala…

E em relação aos reféns: não são só os alunos; são os alunos, os professores, os encarregados de educação, os pais, os avós, os desempregados, os precários, os emigrantes forçados… Os reféns são todos aqueles que, em Portugal, hipotecam presentes e futuros para satisfazer a “porra” de uma entidade que parece não saber que nós não somos números mas sim pessoas! – Uma orgia sem um palavrão não ficaria completa.

Se há momentos para ser solidária, este é um deles! Estou convosco* – Lindo. Sequestrada e sequestradores, lado a lado. Norrmalmstorg não assistiu a melhor demonstração. Bravo! Bravo!

Inês Gonçalves (ligação para o texto oficial)

Bloco de Esquerda - Inconformacao 2011 (com Ines Gonçalves)

E quem é a Inês Gonçalves? De acordo com o Público, apesar dos seus tenros 18 anos, é militante do Bloco de Esquerda. E já o era em 2011, como podem ver no cartaz ao lado – cliquem para alargar, o nome dela está na sessão de encerramento.

Independente não é.

Comparável com o Martim – um rapaz de 16 anos sem experiência política – também não.

É simplesmente uma operacional do Bloco de Esquerda a apoiar uma greve.

Não se pode dizer que seja exactamente algo muito inovador…

 

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