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Camarate, por Fernando Farinha Simões

04 Dez

O texto foi publicado aqui. Publico sem edições ou garantias de veracidade:

Eu, Fernando Farinha Simões, decidi finalmente, em 2011, contar toda a verdade sobre Camarate.

No passado nunca contei toda a operação de Camarate, pois estando a correr o processo judícial, poderia ser preso e condenado.

Também porque durante 25 anos não podia falar, por estar obrigado ao sígilo por parte da CIA, mas esta situação mudou agora, ao que acresce o facto da CIA me ter abandonado completamente desde 1989.

Finalmente decidi falar por obrigação de consciência.

Fiz o meu primeiro depoimento sobre Camarate, na Comissão de Inquérito Parlamentar, em 1995.

Mais tarde prestei alguns depoimentos em que fui acrescentando factos e informações.

Cheguei a prestar declarações para um programa da SIC, organizado por Emílio Rangel, que não chegou contudo a ir para o ar.

Em todas essas declarações públicas contei factos sobre o atentado de Camarate, que nunca foram desmentidos, apesar dos nomes que citei e da gravidade dos factos que referi.

Em todos esses relatos, eu desmenti a tese oficial do acidente, defendida pela Polícia Judiciária e pela Procuradoria-geral da Republica.

Numa tive dúvidas de que as Comissões de Inquérito Parlamentares estavam no caminho certo, pois Camarate foi um atentado.

Devo também dizer que tendo eu falado de factos sobre Camarate tão graves e do envolvimento de certas pessoas nesses factos, sempre me surpreendeu que essas pessoas tenham preferido o silêncio.

Estão neste caso o Tenente Coronel Lencastre Bernardo ou o Major Canto e Castro.

Se se sentissem ofendidos pelas minhas declarações, teria sido lógico que tivessem reagido.

Quanto a mim, este seu silêncio só pode significar que, tendo noção do que fizeram, consideraram que quanto menos se falar no assunto, melhor.

Nessas declarações que fiz, desde 1995, fui relatando, sucessivamente, apenas parte dos factos ocorridos, sem nunca ter feito a narração completa dos acontecimentos.

Estavamos ainda relativamente proximos dos acontecimentos e não quis portanto revelar todos os pormenores, nem todas as pessoas envolvidas nesta operação.

Contudo, após terem passado mais de 30 anos sobre os factos, entendi que todos os portugueses tinham o direito de conhecer o que verdadeiramente sucedeu em Camarate.

Não quero contudo deixar de referir que hoje estou profundamente arrependido de ter participado nesta operação, não apenas pelas pessoas que aí morreram, e cuja qualidade humana só mais tarde tive ocasião de conhecer, como do prejuízo que constituiu, para o futuro do país, o desaparecimento dessas pessoas.

Naquela altura contudo, Camarate era apenas mais uma operação em que participava, pelo que não medi as consequências.

Peço por isso desculpa aos familiares das vítimas, e aos Portugueses em geral, pelas consequências da operação em que participei.

Gostaria assim de voltar atrás no tempo, para explicar como acabei por me envolver nesta operação.

Em 1974 conheci, na África do Sul, a agente dupla alemã, Uta Gerveck, que trabalhava para a BND (Bundesnachristendienst) – Serviços de Inteligência Alemães Ocidentais, e ao mesmo tempo para a Stassi.

A cobertura legal de Uta Gerveck é feita através do conselho mundial das Igrejas (uma espécie de ONG), e é através dessa fachada que viaja praticamente pelo Mundo todo, trabalhando ao mesmo tempo para a BND e para a Stassi.

Fez um livro em alemão que me dedicou, e que ainda tenho, sobre a luta de liberdade do PAIGC na Guiné Bissau.

O meu trabalho com a Stassi veio contudo a verificar-se posteriormente, quando estava já a trabalhar para a CIA.

A minha infiltração na Stassi dá-se por convite da Uta Gerveck, em 1976, com a concordância da CIA, pois isso interessava-lhes muito.

Úta Gerveck apresenta-me, em 1978, em Berlim Leste, a Marcus Wolf, então Director da Stassi.

Fui para esse efeito então clandestinamente a Berlim Leste, com um passaporte espanhol, que me foi fornecido por Úta Gerveck.

0 meu trabalho de infiltração na Stassi consistiu na elaboração de relatórios pormenorizados acerta das “toupeiras” infiltradas na Alemanha Ocidental pela Stassi.

Que actuavam nomeadamente junto de Helmut Khol, Helmut Schmidt e de Hans Jurgen Wischewski.

Hans Jurgen Wischewski era o raponsável pelas relações e contactos entre a Alemanha Ocidental e de Leste, sendo Presidente da Associação Alemã de Coopenção e Desenvolvimento (ajuda ao terceiro Mundo), e também ia às reuniões do Grupo Bilderberg.

Viabilizou também muitas operações clandestinas, nos anos 70 e 80, de ajuda a gupos de libertação, a partir da Alemanha Ocidental.

Estive também na Academia da Stassi, várias vezes, em Postdan – Eiche.

Relativamente ao relato dos factos, gostaria de começar por referir que tenho contactos, desde 1970, em Angola, com um agente da CIA, que é o jornalista e apresentador de televisão Paulo Cardoso (já falecido).

Conheci Paulo Cardoso em Angola com quem trabalhei na TVA – Televisão de Angola na altura.

Em 1975, formei em Portugal, os CODECO com José Esteves, Vasco Montez, Carlos Miranda e Jorge Gago (já falecido).

Esta organização pretendia, defender, em Portugal, se necessário por via de guerrilha, os valores do Mundo Ocidental.

Através de Paulo Cardoso sou apresentado, em 1975, no Hotel Sheraton, em Lisboa, a um agente da CIA, antena, (recolha de informações), chamado Philip Snell.

Falei então durante algum tempo com Philip Snell.

O Paulo Cardoso estava então a viver no Hotel Sheraton.

Passados poucos dias, Philip Snell, diz-me para ir levantar, gratuitamente, um bilhete de avião, de Lisboa para Londres, a uma agência de viagens na Av. De Ceuta, que trabalhava para a embaixada dos EUA.

Fui então a uma reunião em Londres, onde encontrei um amigo antigo, Gary Van Dyk, da África do Sul, que colaborava com a CIA.

Fui então entrevistado pelo chefe da estação da CIA para a Europa, que se chamava John Logan.

Gary Van Dyk, defendeu nessa reunião, a minha entrada para a CIA, dizendo que me conhecia bem de Angola, e que eu trabalhava com eficiência.

Comecei então a trabalhar para a CIA, tendo também para esse efeito pesado o facto de ter anteriormente colaborado com a NISS – National Intelligence Security Service ( Agência Sul Africana de Informações).

Gary Van Dyk era o antena, em Londres, do DONS – Department Operational of National Security (Sul Africana).

Regressando a Lisboa, trabalhei para a Embaixada dos EUA, em Lisboa entre 1975 e 1988, a tempo inteiro.

Entre 1976 e 1977, durante cerca de um ano e meio vivi numa suite no Hotel Sheraton, o que pode ser comprovado, tudo pago pela Embaixada dos EUA.

Conduzia então um carro com matrícula diplomática, um Ford, que estacionava na garagem do Hotel.

Nesta suite viveu também a minha mulher, Elsa, já grávida da minha filha Eliana.

O meu trabalho incluia recolha de informações /contra informações, informações sobre tráfico de armas, de operações de combate ao tráfico de droga, informações sobre terrorismo, recrutamento de informadores, etc.

Estas actividades incluem contactos com serviços secretos de outros países, como a Stassi, a Mossad, e a “Boss” (Sul Africana), depois NISS – National Information Secret Service, depois DONS e actualmete SASS.

Era pago em Portugal, recebendo cerca de USD 5.000 por mês.

Nestas actividades facilita o facto de eu falar seis línguas.

Actuei utilizando vários nomes diferente, com passaportes fornecidos pela Embaixada dos EUA em Lisboa.

Facilitava também o facto de eu falar um dialecto angolano, o kimbundo.

A Embaixada dos EUA tinha também uma casa de recuo na Quinta da Marinha, que me estava entregue, e onde ficavam frequentemente agentes e militares americanos, que passavam por Portugal.

Era a vivenda “Alpendrada”.

A partir de 1975, como referi, passei a trabalhar directamente para a CIA.

Contudo a partir de l978, passei a trabalhar como agente encoberto, no chamado “Office of Special Operations”.

A que se chamava serviços clandestinos, e que visavam observar um alvo, incluindo perseguir, conhecer e eliminar o alvo, em qualquer país do mundo, excepto nos EUA.

Por pertencermos a este Office, éramos obrigados a assinar uma clausula que se chamava “plausible denial” que significa que se fossemos apanhados  nestas operações com documentos de identificação falsos, a situação seria por nossa conta e risco, e a CIA nada teria a ver com a situação.

Nessa circunstância tinhamos o discurso preparado para explicar o que estavamos a fazer, incluindo estarmos preparados para aguentar a tortura.

Trabalhei para o “Office of Special Operations ” até 1989, ano em que saí da CIA.

Para fazer face a estes trabalhos e operações, as minhas contas dos cartões de crédito do VISA, American Express e Dinners Club, tinham, cada uma, um planfond de 10.000 USD, que podiam ser movimentados em caso de necessidade.

Estes cartões eram emitidos no Brasil, em bancos estrangeiros sedeados no Brasil, como o Citibank, o Bank of Boston ou o Bank of America.

Entre 1975 e 1989, portanto durante cerca de 14 anos, gastei com estes cartões cerca de 10 milhões de USD, em operações em diversos paises, nomeadamente pagando a informadores, politicos, militares, homens de negócios, e também traficantes de armas e de drogas, em ligação com a DEA (Drug Enforcement Agency).

Existiram outros valores movimentados à parte, a partir de um saco  azul, “em cash”, valores esses postos á disposição pelo chefe da estação da CIA, no local onde as operações eram realizadas.

Este saco azul servia para pagar despesas como viagens, compras necessárias, etc.

Posso referir que a operação de Camarate, que a seguir irei transcrever custou a preços de 1980 entre 750.000 e 1 milhão de USD.

Só o Sr. José António dos Santos Esteves recebeu 200.000 USD.

Estas despesas relacionadas com a operação de Camarate, incluiram os pagamentos a diversas pessoas e participantes, como o Sr. Lee Rodrigues, como seguidamente irei descrever.

Entre 1975 e 1988, participei em vários cursos e seminários em Langley, Virginia e Quantico, pago pela CIA, sobre informação, desinformação, contra-informação. terrorismo, contra-terrorismo, infiltrações encobertas, etc., etc.

Trabalhei em serviços de infiltração pela CIA e pela DEA (Drug Enforcement Agency), em diferentes países, como Portugal, El Salvador, Bolívia, Colômbia,Venezuela, Peru, Guatemala, Nicarágua, Panamá, Chile, Líbano, Síria, Egipto, Argélia, Marrocos, Filipinas.

A minha colaboração com a DEA, iniciou-se em 1981, através de Richard Lee Armitage.

Em 1980, Richard Armitage viria também a estar comigo e com o Henry Kissinger em Paris, Richard Lee Armitage era membro do CFR (Counceil for Foreign Affairs and Relations) e da Organização e Cooperação para a Segurança da Europa (OSCE), criada pela CIA, Richard Armitage era também membro, na altura, do Grupo Carlyle, do qual o CEO era Frank Carlucci.

O Grupo Carlyle dedica-se à construcção civil, imobiliário e é uma dos maiores grupos de tráfico de armas no Mundo,  junto com o Grupo Haliburton, chefiado por Richard “Dick” Cheney.

O Grupo Carlyle pertence a vários investidores privados dos EUA, por regra do Partido Republicano.

Este grupo promove nomeadamente vendas de armas, petróleo e cimento para países como o Iraque, Afeganistão e agora para os países da primavera árabe.

A lavagem do dinheiro do tráfico de armas e da droga, era feito, na altura, pelo Banco BCCI, ligado à CIA e à NSA – National Security Agency.

O BCCI foi fundado em 1972 e fechado no princípio dos anos 90, devido aos diversos escândalos em que esteve envolvido.

Oliver North pertencia ao Conselho Nacional de Segurança, às ordens de william walker, ex-embaixador dos EUA em El Salvador.

Oliver North seguiu e segue sempre as ordens da CIA, dependente de  William Casey.

Oliver North está hoje retirado da CIA , e é CEO de vários grupos privados americanos, tal como Frank  Carlucci.

Da DEA conheci Celerino Castilho e Mike Levine.

Anabelle Grimm e Brad Ayers, tendo trabalhado para a DEA entre 1975 até 1989.

Da CIA trabalhei também com Tosh Plumbey, Ralph Megehee – tenente coronel da NSA, actualmente reformado.

Da CIA trabalhei ainda com Bo Gritz e Tatum.

Estes dois agentes tinham a sua base de operações em El Salvador, (onde eu também estive durante os anos 80, durante o tráfico Irão – Contras), desenvolvendo nomeadamente actividades com tráfico de armas.

Uma das suas operações consistiu no transporte de armas dos EUA para El-Salvador, que eram depois transportadas para o Irão e a Nicarágua.

Os aviões, normalmente panamianos e colombianos regressavam depois para os EUA com droga, nomeadamente cocaina, proveniente de países como a Colômbia, Bolivia e El Salvador, que serviam para financiar a compra de armas.

Esta actividade desenvolveu-se essencialmente desde os finais dos anos 70 até 1988.

A cocaina vinha nomeadamente da Ilha Normans Cay, nas Bahamas, de que era

proprietário Carlos Lheder Rivas.

Carlos Rivas era um dos chefes do Cartel de Medellin, trabalhando para este cartel e para ele próprio.

Carlos Rivas era, neste contexto um personagem importante, sendo o braço direito de Roberto Vesco, que trabalhava para a CIA e para a NSA.

Roberto Vesco era proprietário de Bancos nas Bahamas, nomeadamente o Colombus Trust.

Carlos rivas fazia toda a logística de Roberto Vesco e forneciam armas a troco de cocaina, nomeadamente ao movimento de guerrilha Colombiano M19.

Roberto Vesco está hoje refugiado em Cuba.

O dinheiro das operações de armas e de droga são lavadas no Banco BCCI e noutros bancos, com o nome de código “Amadeus”.

Há no entanto contas activas nas Bahamas e em Norman’s Cay, nas Ilhas Jersey, que gerem contas bancárias, nomeadamente para o tráfico de armas para os “Contras” da Nicarágua, e para o Irão.

Como acima referi, muito desse dinheiro foi para bancos americanos e franceses, o que em parte explicará porquê é que Manuel Noriega foi condenado a 60 anos de prisão, tendo primeiro estado preso nos EUA, depois em França, e actualmente no Panamá.

Foi preso porque era conveniente que estivesse calado, não referindo nomeadamente que partilhava com a CIA, o dinheiro proveniente da venda de armas e da venda de drogas.

Noriega movimentava contas bancárias em mais de 120 bancos, com conhecimento da CIA.

Noriega fazia também parte da operação “Black Eagle”, dedicada ao tráfico de armas e de droga, que em 1982 se transformou numa empresa chamada Enterprise, com a colaboração de Oliver North e de Donald Gregg da CIA.

Em face do grau de informações e de conhecimento que tinha, é fácil de perceber porquê se verificou o derrube e a prisão de Noriega.

Devo dizer que estou pessoalmente admirado que não o tenham até agora “suicidado”, pois deve ter muitos documentos ainda guardados.

Noriega tinha a intenção de contar tudo o que sabia sobre este tráfico, nomeadamente sobre os serviços prestados à CIA e a Bush Pai, tendo por isso sido preso.

Washington e a CIA são assim veículos importantes do tráfico de armas e de droga, utilizando nomeadamente os pontos de apoio de South Flórida e do Panamá.

No início dos anos 80 conheci um traficante do cartel de Cali, de nome Ramon Milian Rodriguez, que depois mais tarde perante uma comissão do Senado Americano, onde falou do tráfico de armas e de droga, do branqueamento de dinheiro, bem como das cumplicidades de Oliver North neste tráfico às ordens de Bush Pai e do Donald Gregg.

Muito do dinheiro gerado nessas vendas foi para bancos americanos e franceses.

Este dinheiro servia também para compras de propriedades imobiliárias.

Por estar ligado a estas operações, Noriega foi preso pelos EUA.

Foi numa operação de droga que realizei na  Colômbia e nas Bahamas, em 1984, onde se deu a prisão de Carlos Lheder Rivas, do Cartel de Medallin, em que eu não concordei com os agentes da DEA da estação de Miami, pois eles queriam ficar com 10 milhões de dólars e com o avião “lear-jet” provenientes do tráfico de droga.

Não concordando, participei desses agentes ao chefe da estação da DEA de Maiami.

Este chefe mandou-lhes então levantar um inquerito, tendo sido presos pela própria DEA.

A partir de aí a minha vida tornou-se num verdadeiro inferno, nomeadamente com a realização de armadilhas, e detenções, tendo acabado por sair da CIA em 1989, a conselho de Frank Carlucci.

O principal culpado da minha saida da CIA e da DEA foi John C. Lawn, director da estação da DEA e amigo de Noriega e de outros traficantes.

John Lawn encobriu, ou tentou encobrir, todos os agentes da DEA que denunciei aquando da prisão de Carlos Rivas.

Após a minha saida da CIA, Frank carlucci continuou contudo a ajudar-me com dinheiro, com conselhos e com apoio logístico, sempre que eu precisei até 1994.

Regressando contudo à minha actividade em Portugal, anteriormente a Camarate e ao serviço da CIA, devo referir que conheci Frank Carlucci, em 1975, através de duas pessoas: um jornalista Português da RTP, já falecido, chamado Paulo Cardoso de Oliveira, que conhecera em Angola, e que era agente da CIA, e Gary Van Dyk, agente da BOSS (Sul Africana) que conheci também em Angola.

Mantive contatos directos flequentes com Frank Carlucci, sobretudo entre 1975 e 1982, de quem recebi instruções para varios trabalhos e operações.

Os meus contactos com Frank Carlucci mantêm-se até hoje, com quem falo ainda ocasionalmente pelo telefone.

A última vez que estive com ele foi em Madrid, em 2008, na escala de uma viagem que Frank Carlucci realizou à Turquia.

Em Lisboa, também lidei e recebi ordens de William Hasselberg – antena da CIA em Lisboa, que além de recolher informacões em Lisboa actua como elo de ligação entre porugueses e americanos.

Tive inclusivamente uma vida social com William Hasselberg, que inclui uma vida nocturna em Lisboa, em diferentes bares, restaurantes, e locais públicos.

William Hasselberg gostava bastante da vida nocturna, onde tinha muito gosto em aparecer com as suas diversas “conquistas” femininas.

Trabalhei também com outros agentes da CIA, nomeadamente Philip Agee.

Neste ambito, trabalhei em operações de tráfico de armas, e em infiltrações em organizações com o objectivo de obter informações políticas e militares, “Billie” Hasselberg fala bem português, e era grande amigo de Artur Albarran.

Hasselberg e Albarran conheceram-se numa festa da embaixada da Colômbia ou Venezuela, tendo Albarran casado nessa altura, nos anos 80, com a filha do embaixador, que foi a sua primeira mulher.

Das reuniões que tive com a embaixada  americana em Lisboa, a partir de 1978, conheci vários agentes da CIA.

O Chefe da estação da CIA em Portugal, John Logan, oferece-me um livro seu autografado.

Conheci também o segundo chefe da CIA, Sr. Philip Snell, Sr. James Lowell, e o Sr. Arredondo.

Da parte militar da CIA conheci o Coronel Wilkinson, a partir de quem conheci o coronel Oliver North e o Coronel Peter Bleckley.

O coronel Oliver North, militar mas também agente da CIA e o coronel Peter Bleckley, são os principais estrategas nos contactos internacionais, com vista ao tráfico e venda de armas, nomeadamente com países como Irão, Iraque, Nicarágua, e o El Salvador.

Na sequência do conhecimento que fiz com Oliver North, tendo várias reuniões com ele e com agentes da CIA, por causa do tráfico e negócio de armas.

Estas reuniões têm lugar em vários países, como os EUA, o México, a Nicarágua, a Venezuela, o Panamá.

Neste último país contacto com dois dos principais adjuntos de Noriega, José Bladon, chefe dos serviços secretos do Panamá, que me disse que práticamente todos os embaixadores  do Panamá em todo o Mundo estavam ao serviço de Noriega.

Blandon pediu-me na altura se eu arranjava um Rolls Royce Silver Spirits, para o embaixador do Panamá em Lisboa, o que acabei por conseguir.

Em meados de 1980, Frank Carlucci refere-me, por alto, e pela primeira vez, que eu iria ser encarregue de fazer um “trabalho” de importância máxima e prioritária em Portugal, com a ajuda dele, da CIA, e da Embaixada dos EUA em Portugal, sendo-me dado, para esse efeito, todo o apoio necessário.

Tenho depois reuniões em Lisboa, com o agente da CIA, Frank Sturgies, que conheço pela primeira vez.

Frank Sturgies é uma pessoa de aspecto sinistro e com grande frieza, e é organizador das forças anti-castristas, sediadas em Miami, e é elo de ligação com os “contra” da Nicarágua.

Frank Sturgies refere-me então, que está em marcha um plano para afastar, definitivamente, (entenda-se eliminar) uma pessoa importante, ligada ao Governo Português de então, sem dizer contudo ainda nomes.

Algum tempo depois, possívelmente em Setembro ou Outubro de 1980, jogo ténis com Frank Carlucci quase toda a tarde, na antiga residência do embaixador dos EUA, na Lapa.

Janto depois com ele, onde Frank Cartucci refere novamente que existem problemas em Portugal para a venda e transporte de armas, e que Francisco Sá Carneiro não era uma pessoa querida dos EUA.

Depois já na sobremesa, juntam-se a nós o Gen. Diogo Neto, o Cor. Vinhas, o Cor. Robocho Vaz e Paulo Cardoso, onde se refere novamente a necessidade de se afastarem alguns obstáculos existentes ao negócio de armas.

Todos estes elementos referem a Frank Caducci que eu sou a pessoa indicada para a preparação e implementação desta operação.

Em Outubro de 1980, num juntar no Hotel Sharaton onde participo eu, Frank Sturgies (CIA), Vilfred Navarro (CIA), o General Diogo Neto e o Coronel Vinhas (já falecidos), onde se refere que há entraves ao tráfico de armas que têm de ser removidos.

Depois há um outro jantar também no Hotel Sharaton, onde participam, entre outros, eu e o Cor. Oliver North, onde este diz claramentete que “é preciso limar algumas arestas” e “se houver necessidade de se tirar aguém do caminho, tira-se”, dando portanto a entender que haverá que eliminar pessoas que criam problemas aos negócios de venda de armas.

Oliver North diz-me também que está a ter problemas com a sua própria organização, e que teme que o possam querer afastar e “deixar cair”, o que acabou por acontecer.

Há também Portugueses que estavam a beneficiar com o tráfico de armas, como o Major Canto e Castro, o Gen. Pezarat Correia, Franco Charais e o empresário Zoio.

Sabe-se também já nessa altura que Adelino Amaro da Costa estava a tentar acabar com o tráfico de armas, a investigar o fundo de desenvolvimento do Ultramar, e a tentar acabar acabar com lobbies instalados.

Afastar essas duas pessoas pela via política era impossível, pois a AD tinha ganho as eleições.

Restava portanto a via de um atentado.

Passados alguns dias, recebo um telefonema do Major Canto e Castro (pertencente ao Conselho da Revolução), que eu já conhecia de Angola, pedindo para eu me encontrar com ele no Hotel Altis.

Nessa reunião está também Frank Sturgies, e fala-se pela primeira vez em “atentado”, sem se referirem ainda quem é o alvo.

Referem que contam comigo para esta operação.

O Major Canto e Castro diz que é preciso recrutar alguém capaz de realizar esta operação.

Tenho depois uma segunda reunião no Hotel Altis com Frank Sturgies e Philip Snell, onde Frank Sturgies me encarrega de preparar e arranjar alguns operacionais para uma possível operação dentro de pouco tempo, possívelmente dentro de 2 ou 3 meses.

Perguntam-me se já recrutei a pessoa certa para realizar este atentado, e se eu conheço algum perito na fabricação de bombas e em armas de fogo.

Respondo que em Espanha arranjaria alguém da ETA para vir cá fazer o atentado, se tal fosse necessário.

Quem paga a operação e a preparação do atentado é a CIA e o Major Canto e Castro.

Canto e Castro colabora na altura com os serviços Secretos Franceses, para onde entrou através do sogro na época.

O sogro era de nacionalidade Belga, que trabalhava para a SDEC, os serviços de inteligência franceses, em 1979 e 1980.

Canto e Castro casou com uma das suas filhas, quando estava em Luanda, em Angola, ao serviço da Força Aérea Portuguesa.

Em Luanda, Canto e Castro vivia perto de mim.

Tendo que organizar esta operação, falo então com José Esteves e mais tarde com Lee Rodrigues (que na altura ainda não conhecia).

O elo de ligação de Lee Rodrigues em Lisboa era Evo Fernandes, que estava ligado à resistância moçambicana, a Renamo.

Falo nessa altura também com duas pessoas ligadas à ETA militar, para caso do atentado ser realizado através de armas de fogo.

Depois, noutro jantar em casa de Frank Carlucci, na Lapa, na mansarda, no último andar, onde jantamos os dois sozinhos, Frank Carlucci diz abertamente e pela primeira vez, o que eu tinha de fazer, qual era a operação em curso e que esta visava Adelino Amaro da Costa, que estava a dificultar o transporte e venda de armas a partir de Portugal ou que passavam em Portugal, e que havia luz verde dada por Henry Kissinger e Oliver North.

Cumprimento ambos, referindo que sou “o homem deles em Lisboa”.

Três semanas antes dos atentado, Canto e Castro e Frank Sturgies, referem pela primeira vez, que o alvo do atentado é Adelino Amaro da Costa.

O Major Canto e Castro afirma que irá viajar para Londres.

Frank Sturgies pede-me que obtenha um cartão de acesso ao aeroporto para um tal Lee Rodrigues, que é referido como sendo a pessoa que levará e colocará a bomba no avião.

Recebo depois um telefonema de Canto e Castro, referindo que está em Londres e para eu ir ter lá com ele.

Refere-me que o meu bilhete está numa agência de viagens situada na Av. da Republica , junto à pastelaria Ceuta.

Chegado a Londres fico no Hotel Grosvenor, ao pé de Victoria Station.

Canto e Castro vai buscar-me e leva-me a uma casa perto do Hotel, onde me mostra pela primeira vez, o material, incluindo explosivos, que servirão para confeccionar a “bomba” nesta operação.

Essa casa em Londres, era ao mesmo tempo residência e consultório de um dentista indiano, amigo de Canto e Castro, Canto e Castro refere-me que esse material será levado para Portugal pela sua companheira Juanita Valderrama.

O Major Canto e Castro pede-me então que vá ao Hotel Altis recolher o material.

Vou então ao Hotel acompanhado de José esteves, e recebemos uma mala e uma carta da senhora Juanita, José Esteves prepara então uma bomba destinada a um avião, com esses materiais, com a ajuda de Carlos Miranda.

O Major Canto e Castro volta depois de Londres, encontra-se comigo, e digo-lhe que a bomba está montada.

Lee Rodrigues é-me apresentado pelo Major Canto e Castro.

Alguns dias depois Lee Rodrigues telefona-me e encontramo-nos para jantar no restaurante Galeto, junto ao Saldanha, juntamente com Canto e Castro, onde aparece também Evo Fernandes, que era o contacto de Lee Rodrigues em Lisboa.

Fora Evo Fernandes que apresentara Lee Rodrigues a Canto e Castro.

Lee Rodrigues era moçambicano e tinha ligações à Renamo.

Nesse jantar alinham-se pormenores sobre o atentado.

Canto e Castro refere contudo nesse jantar que o atentado será realizado em Angola.

Perante esta afirmação, pergunto se ele está a falar a sério ou a brincar, e se me acha com “cara de palhaço”- fazendo intenção de me levantar.

Refiro que, através de Frank Carlucci, já estava a par de tudo.

Lee Rodrigues pede calma, referindo depois Canto e Castro que desconhecia que eu já estava a par de tudo, mas que sendo assim nada mais havia a esconder.

Possivelmente em Novembro, é-me solicitado por Philip Snell que participe numa reunião em Cascais, num iate junto á antiga marina (na altura não existia a actual marina).

Vou e levo comigo José Esteves.

Essa reunião tem lugar entre as 20 e as 23 horas, nela participando Philips Snell, Oliver North, Frank Sturgies, Sydral e Lee Rodrigues e mais cerca de 2 ou 3 estrangeiros, que julgo serem americanos.

Nesta reunião é referido que há que preparar com cuidado a operação que será para breve, e falam-se de pormenores a ter em atenção.

É referido também os cuidados que devem  ser realizados depois da operação, e o que fazer se algo correr mal.

A língua utilizada na reunião é o inglês.

José Esteves recebeu então USD 200.000 pelo seu futuro trabalho.

Eu não recebi nada pois já era pago normalmente pela CIA.

Eu nessa altura recebia da CIA o equivalente a cinco mil US Dólares, dispondo também de dois cartões de crédito Diner’s Club e Visa Gold, ambos com plafonds de 10.000 US Dólares.

Lee Rodrigues pede-me então que arranje um cartão para José Esteves entrar no aeroporto.

Para este efeito, obtenho um cartão forjado, na Mouraria, em Lisboa, numa tipografia que hoje já não existe.

Lee Rodrigues diz-me também que irá obter uma farda de piloto numa loja ao pé do Coliseu, na Rua das Portas de Santo Antão.

A meu pedido, João Pedro Dias, que era carteirista, arranja também um cartão para Lee Rodrigues.

Este cartão foi obtido por João Pedro Dias, roubando o cartão de Miguel Wahnon, que era funcionário da TAP.

Apenas foi necessário mudar-se a fotografia desse cartão, colocando a fotografia de Lee Rodrigues.

José Esteves prepara então na sua casa no Cacém, um engenho para o atentado.

Conta com a colaboração de outro operacional  chamado Carlos Miranda, especialista em explosivos, que é recrutado por mim, e que eu já conhecia de Angola, quando Carlos Miranda era comandante da FNLA e depois CODECO em Portugal.

José Esteves foi também um dos principais comandantes da FNLA, indo muitas vezes a Kinshasa.

Depois do artefacto estar pronto, vou novamente a Paris.

No Hotel Ritz, à tarde, tenho um encontro com Oliver North, o cor. Wilkison e Philip Snell, onde se refere que o alvo a abater era Adelino Amaro da Costa, Ministro da Defesa.

Volto a Portugal, cerca de 5 ou 6 dias antes do atentado.

É marcado por Oliver North um jantar no hotel Sheraton.

Nesse jantar aparece e participa um indivíduo que não conhecia e que me é apresentado por Oliver North , chamado Penaguião.

Penaguião afirma ser segurança pessoal de Sá Carneiro.

Oliver North refere que Penaguião faz parte da segurança pessoal de Sá Carneiro e que é o homem que conseguirá meter Sá Carneiro no Avião.

Penaguião afirma, de forma fria e directa que Sá Carneiro também iria no avião, “pois dessa forma matavam dois coelhos de uma cajadada!”

Afirma que a sua eliminação era necessária, uma vez que Sá Carneiro era anti-americano, e apoiava incondicionalmente Adelino Amaro da Costa na denúncia do tráfico de armas, e na descoberta do chamado saco azul do Fundo de Defesa do Ultramar, pelo que tudo estava, desde o início, preparado para incluir as duas pessoas.

Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa.

Fico muito receoso, pois só nesse momento fiquei a conhecer a inclusão de Sá Carneiro no atentado.

Pergunto a Penaguião como é que ele pode ter a certeza de que Sá Carneiro irá no avião, ao que Penaguião responde de que eu não me preocupasse pois que ele, com mais alguém, se encarregaria de colocar Sá Carneiro naquele avião naquele dia e naquela hora, pois ele coordenava a segurança e a sua palavra era sempre escutada.

No final do jantar, juntam-se a nós três o Gen. Diogo Neto e o Cor. Vinhas.

Fico estarrecido com esta nova informação sobre Sá Carneiro, e decido ir, nessa mesma noite, à residência do embaixador dos EUA, na Lapa, onde estava Frank Carlucci, a quem conto o que ouvi.

Frank Carlucci responde que não me preocupasse, pois este plano já estava determinado há muito tempo.

Disse-me que o homem dos EUA era Mário Soares, e que Sá Carneiro, devido à sua maneira de ser, teimoso e anti-americano, não servia os interesses estratégicos dos EUA.

Mário Soares seria o futuro apoio da política americana em Portugal, junto com outros lideres do PSD e do PS.

Aceito então esta situação, uma vez que Frank Carlucci já me havia dito antes que tudo estava assegurado, inclusivamente se algo corresse mal, como a minha saída de Portugal, a cobertura total para mim e para mais alguém que eu indicasse, e que pudesse vir a estar em perigo.

Isto e a usual “realpolitik” dos Estados Unidos, e suspeito que sempre será.

Três dias antes do atentado há uma nova reunião, na Rua das Pretas no Palácio Roquete, onde participam Canto e Castro, Farinha Simões, Lee Rodrigues, José Esteves e Carlos Miranda

Carlos Miranda colaborou na montagem do engenho explosivo com José Esteves, tendo ido várias vezes a casa de José Esteves.

Nessa reunião são acertados os últimos pormenores do atentado.

Nessa reunião, Lee Rodrigues diz que ele está preparado para a operação e Canto e Castro diz que o  atentado será a 3 ou 4 de Dezembro.

Nessa reunião é dito que o alvo é Adelino Amaro da Costa.

No dia seguinte encontramo-nos com Canto e Castro no Hotel Sheraton, e vamos jantar ao restaurante ” O Polícia”.

No dia 4 de Dezembro, telefono de um telefone no Areeiro, para o Sr. William Hasselberg, na Embaixada dos EUA, para confirmar que o atentado é para realizar, tendo-me este referido que sim.

Desse modo, à tarde, José Esteves traz uma mala a minha casa, e vamos os dois para o aeroporto.

Conduzo José Esteves ao aeroporto, num BMW do José Esteves.

Já no aeroporto, José Esteves e eu entramos no aeroporto, por uma porta lateral, junto a um posto da Guarda Fiscal, utilizando o cartão forjado, anteriormente referido.

Depois José Esteves desloca-se e entrega a mala, com o engenho, a Lee Rodrigues, que aparece com uma farda de piloto e é também visto por mim.

Depois de cerca de 15 minutos, sai já sem a mala, e sai comigo do aeroporto.

Separamo-nos, mas mais tarde José esteves encontra-se novamente comigo no cabeleireiro Bacta, no centro comercial Alvalade.

Depois José esteves aparece em minha casa com a companheira da época, de nome Gina, e com um saco de roupa para lá ficar por precaução.

Ouvimos depois o noticiário das 20 horas na televisão, e José Esteves fica muito surpreendido, pois não sabia que Sá Carneiro também ia no avião.

4º PARTE

Afirma que fomos enganados!

Telefona então para Lencastre Bernardo, que tinha grandes ligações à PJ e à PJ Militar, e uma Ligação ao General Eanes, Lencastre Bernardo tem também ligações a Canto e Castro, Pezarat Correia, Charais, ao empresário Zoio a José António Avelar que era ex-braço direito de Canto e Castro.

José Esteves telefona-lhe, e pede para se encontrar com ele.

Este aceita, pelo que, pelas 23 horas, José Esteves, eu, e a minha mulher Elza, dirigimo-nos para a Rua GomesFreire, na PJ, para falar com ele.

Esteves sobe para falar com Lencastre Bernardo que lhe tinha dito que não se preocupasse, pois nada lhe sucederia.

Passámos contudo por casa de José Esteves pois este temia que aí houvesse já um conjunto de polícias à sua procura, devido a considerarem que ele estava associado à queda do avião em Camarate.

José Esteves ficou assim aliviado por verificar que não existia aparato policial à porta de sua casa.

Vem contudo dormir para minha casa.

Alguns dias depois falei novamente com Frank Carlucci.

A quem manifestei o meu desconhecimento e ter ficado chocado por ter sabido, depois de o avião ter caído, que acompanhantes e familiares do Primeiro Ministro e do Ministro da Defesa também tinham ido no Avião.

Frank Carlucci respondeu-me que compreendia a minha posição, mas que também ele desconhecia que iriam outras pessoas no avião, mas que agora já nada se podia fazer.

Em 1981, encontro-me com Victor Pereira, na altura agente da Polícia Judiciaria, no restaurante Galeto, em Lisboa.

Conto a Victor Pereira que alguns dos atentados estão atribuidos às Brigadas Revolucionárias, relacionados com a colocação de bombas, foram porém efectuadas pelo José Esteves, como foram os casos dos atentados à bomba na Embaixada de Angola, de Cuba (esta última com conhecimento de Ramiro Moreira), na casa de Torres Couto, na casa do prof. Diogo Freitas do Amaral, na casa do Eng. Lopes Cardoso, e na casa de Vasco Montez, a pedido deste, junto ao Jumbo em Cascais, para obter “sensacionalismo” á época, tendo José Esteves espalhado panfletos iguais aos da FP25.

Não falei então com Victor Pereira com Camarate.

Tomei conhecimento no entanto que Victor Pereira, no dia 4 de Dezembro de 1980, tendo ido nessa noite ao Aeroporto da Portela, como agente da PJ, encontrou a mala que era transportada pelo Eng. Adelino Amaro da Costa.

Nessa mala estavam documentos referentes ao tráfico de armas e de pessoas envolvidas com o Fundo de Defesa do Ultramar.

Salvo erro, Victor Pereira entregou essa mala ao inspector da PJ Pedro Amaral, que por sua vez a entregou na PJ.

Disse-me então Victor Pereira que essa mala, de maior importância no caso de Camarate, pelas informações que continha, e que podiam explicar os motivos e as pessoas por detrás deste atentado, nunca mais voltou a aparecer.

Esta informação foi-me transmitida por Victor Pereira, quando esteve preso comigo na prisão de Sintra, em 1986.

Não referi então a Victor Pereira que, como descrevo a seguir, eu tinha já tido contacto com essa mala, em finais de 1982, pelo facto de trabalhar com os serviços secretos na Embaixada dos EUA.

Também em 1981, uns meses depois do atentado, eu e o José Esteves fomos ter com o Major Lencastre Bernardo, na Polícia Judiciária, na Rua Gomes Freire.

Com efeito, tanto o José Esteves como eu, andávamos com medo do que nos podia suceder por cusa do nosso envolvimento no atentado de Camarate, e queriamos saber o que se passava com a nossa protecção por causa de Camarate.

Eu não participo na reunião, fico à porta.

Contudo José Esteves diz-me depois que nessa conversa Lencastre Bernardo lhe referiu que, numa anterior conversa com Francisco Pinto Balsemão, este lhe havia dito ter tido conhecimento prévio do atentado de Camarate, pois em Outubro de 1980, Kissinger o informou de que essa operação ia ocorrer.

Disse-lhe também que ele próprio tinha tido conhecimento prévio do atentado de Camarate.

Disse-lhe ainda que podíamos estar sossegados quanto a Camarate, pois não ia haver problemas connosco, pois a investigação deste caso ia morrer sem consequências.

*** A este respeito gostaria de acrescentar que numa reunião que tive, a sós, em 1986, com Lencastre Bernardo, num restaurante ao pé do ediflcio da PJ na Rua Gomes Freire, ele garantiu-me que Pinto Balsemão estava a par do que se ia passar em 4 de Dezembro.***

No restaurante Fouchet’s, em Paris, Kissinger tinha-me dito, “por alto”, que o futuro Primeiro Ministro de Portugal seria Pinto Balsemão.

É importante referir que tanto Henry Kissinger como Pinto Balsemão eram já, em 1980, membros destacados do grupo Bilderberg, sendo certo que estas duas pessoas levavam convidados às reuniões anuais desta organização.

Deste modo, aquando da conversa com Lencastre Bernardo, em 1986, relacionei o que ele me disse sobre Pinto Balsemão, com o que tinha ouvido em Paris, em l980.

Tive também esta informação, mais tarde, em 1993, numa conversa que tive com William Hasselberg, em Lisboa,quando este me confirmou de que Pinto Balsemão estava a par de tudo.

Em finais de 1982, pelas informações que vou obtendo na Embaixada dos EUA, em Lisboa, verifico que se fala de nomes concretos de personalidades americanas como tendo estado envolvidas em tráfico de armas que passava por Portugal

Pergunto então a William Hasselberg como sabem destes nomes. Ao fim de muitas insistências minhas, William Hasselberg acaba por me dizer que a Pj entregou, na embaixada dos EUA, uma mala com os documentos transportados por Adelino Amaro da Costa, em 4 de Dezembro de 1980, e que ficou junto aos destroços do avião, embora não me tenha dito quem foi a pessoa da PJ que entregou esses documentos.

Peço então a William Hasselberg que me deixe consultar essa mala, uma vez que faço também parte da equipa da CIA em Portugal.

Ele aceita, e pude assim consultar os documentos aí existentes. que consistiam em cerca de 200 páginas.

Pude assim consultar este Dossier durante cerca de uma semana, tendo-o lido várias vezes, e resumido, à mão, as principais partes, uma vez que não tinha como fotografá-lo ou copiá-lo.

Vejo então, que apesar do desastre do avião, e da pasta de Avelino Amaro da Costa ter ficado queimada, e ter sido substituida por outra, os documentos estavam intactos.

Estes documentos continham uma lista de compra de armas, que incluia nomeadamente RPG-7, RPG-27, G3, lança granadas, dilagramas, munições, granadas, minas, rádios, explosivos de plástico, fardas, kalashiskovs AK-47 e obuses.

Referia-se também nesses documentos que para se iludir as pistas, as vendas ilegais de armas eram feitas através de empresas de fachada, com os caixotes a referir que a carga se tratava de equipamentos técnicos, e peças sobresselentes para maquinas agrículas e para a construção civil.

Esta forma de transportar armas foi-me confirmada várias vezes por Oliver North, no decorrer da década de 80, até 1988, e quando estive em Ilopango, em El Salvador, também na década de 80, verifiquei que era verdade.

Nestes documentos lembro-me de ver que algumas armas vinham da empresa portuguesa Braço de Prata, bem como referências de vendas de armas de Portugal e de paises de Leste, como a Polónia e a Bulgária, com destino para a Nicarágua, Irão, El Salvador, Colombia, Panamá, bem como para alguns países Africanos que estavam em guerra, como Angola, ANC da África do Sul, Nigéria, Mali, Zimbawe, Quénia, Somália, Líbia, etc.

Está também claramente referido nesses documentos que a venda de armas é feita atraves da empresa criada em Portugal chamada “Supermarket” (que operava através da empresa mãe “Black – Eagle”).

 
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Publicado por em 4 de Dezembro de 2013 em Política, Portugal

 

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