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Arquivo de etiquetas: Austeridade

CGTP em Loures, já!

Bernardino Soares admite dificuldades:

Hoje iniciou-se um processo de auditoria às contas da Câmara de Loures, com a qual, entre outras coisas, Bernardino Soares pretende aferir às áreas onde podem ser “combatidos desperdícios”.

“Temos de procurar medidas que podem ajudar a reajustar os serviços da câmara. Temos de ver onde podemos reduzir os custos”, afirmou.

Já imagino alguém na sede da CGTP: “Eh pá, camaradas: se queremos ser coerentes, temos de organizar já uma manif em Loures. Lamento, eu também gosto muito do Dino, eh pá, mas reduzir os custos é palavreado para cortes e cortes é austeritarismo. E isso pá é que não.”

Ah, não, espera. É a CGTP. A lógica não funciona por ali.

PS: e aproveito para manifestar o meu apoio ao Bernardino Soares neste medida.
Boa sorte!

PS: Um artigo interessante de Rui Ramos no Expresso. Quando a realidade esbofeteia um socialista, a austeridade não se chama austeridade, os cortes não se chamam cortes. É “fazer muito com pouco”.

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Vitor Bento sobre a Austeridade

“E se olhássemos os números?”, no Diário Económico:

Para fugir ao impressionismo que costuma dominar a discussão do nosso ajustamento, procurei alinhar no quadro junto informação relevante dos cinco países da zona euro envolvidos em processos semelhantes (deixo de lado o Chipre, pela dimensão e curta história no euro).

Como se pode ver, todos estes países (com excepção da Itália) partiram de desequilíbrios financeiros semelhantes, traduzidos em elevadas posições externas negativas, e que, dependendo muito do financiamento externo, ficaram muito vulneráveis à “secagem” dessa fonte. Por outro lado e com excepção da Grécia (com uma recessão particularmente funda), a profundidade das recessões provocadas pelo ajustamento tem sido semelhante em todos os países.

Da mesma forma que, dada a natureza dos desequilíbrios, a redução da procura interna tem sido a principal variável do ajustamento macroeconómico. Portugal não se distingue significativamente em nenhum destes indicadores, e, no impacto verificado na taxa de desemprego, tem ficado muito aquém do que aconteceu em Espanha ou na Grécia.

Onde Portugal se diferencia muito negativamente é no crescimento conseguido antes da crise, apresentando, com a Itália, o pior desempenho de toda a zona euro. O que não pode deixar de se reflectir na percepção das perspectivas de crescimento futuro e, por conseguinte, nas próprias condições do ajustamento. Neste contexto, a narrativa dominante é, não só errada, como contraproducente, pois que não é devido à austeridade que a economia não cresce (como não cresceu quando não havia austeridade), mas é falta de condições de crescimento que acentua a austeridade.

Eu explico: a sustentabilidade da dívida depende, positivamente, do crescimento do PIB e, negativamente, da taxa de juro, tendo o saldo primário do orçamento (saldo sem juros) que acomodar os impactos favoráveis ou desfavoráveis dessas variáveis. Com excepção dos dois primeiros anos dos euro, o crescimento da economia foi sempre inferior à taxa de juro. Para que a dívida fosse sustentável seria, pois, necessário que o orçamento produzisse excedentes primários, o que nunca aconteceu. Por isso, o rácio da dívida cresceu sempre (foi, da zona euro, o que mais aumentou até à crise), encurtando a sua sustentabilidade.

Acabado o financiamento que alimentou esse caminho, o ajustamento tornou-se inevitável. E este exige excedentes primários no Orçamento. Só que, agora, entrou-se num círculo vicioso: a contracção orçamental impacta desfavoravelmente no crescimento imediato, o que acaba por requerer mais contracção orçamental.

De um tal círculo só se consegue sair desbloqueando as condições de crescimento. Ou seja, aumentando a competitividade da economia. Esta é – e continua a ser, porque muito pouco foi feito nessa frente e as resistências continuam enormes – a variável crucial para a sustentabilidade do ajustamento e para a recuperação económica sustentada.

Fraco crescimento com dívida elevada, é também o que junta a Itália (sem grandes desequilíbrios externos) a este grupo. E forte crescimento (3 vezes a média da zona, apesar da crise) é o que faz a Irlanda descolar-se.

 

 

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3 Verdades sobre a Austeridade

O Povo e os Sábios, por João César das Neves no DN:

Um dos grandes mistérios da situação portuguesa é que inúmeros dirigentes e intelectuais antecipam e incitam à revolta e ao tumulto social enquanto o País permanece sereno e ordeiro. Ambos os factos são estranhos. Como os analistas mostram razões ponderosas, o povo deve saber algo que eles ignoram. Três aspectos saltam à vista.

Primeiro, ao longo de duas décadas, especialistas e organizações avisaram que Portugal seguia uma trajectória insustentável que iria acabar mal. Banco de Portugal, OCDE, Comissão europeia, FMI e muitos cientistas anunciavam crescentemente a tempestade iminente. Ninguém podia dizer a data, a sequência ou os contornos, mas a linha geral era irredutível. Por isso soam a oco as acusações que se dirigem aos governantes actuais. Eles são a comissão liquidatária dos erros dos antecessores. Espanta que entre os críticos mais activos estejam alguns desses.

Embebedado 20 anos pelo dinheiro fácil do Tratado de Maastrich, Portugal chegou à borda do abismo e precisa de inverter hábitos recentes para cortar despesas e repor o equilíbrio. Isto todos entendem. A falácia básica de inúmeros comentadores, dos cafés à televisão é: “Quem viveu acima das posses foram ricos e poderosos, por que razão devo eu suportar os custos do esbanjamento alheio?” Felizmente, o povo, que não esqueceu como vivia antes e como a vida mudou com a dívida, entende a mentira por detrás da queixa.

Dinheiro fácil não foi só de ricos. Não havia senão endinheirados entre os utentes dos inúmeros serviços públicos com défice operacional, dos transportes e saneamento à saúde e educação? Seriam os múltiplos centros comerciais, onde prosperavam lojas inacreditáveis, apenas frequentados por abastados? Eram só poderosos a encher os inúmeros restaurantes, pastelarias e cafés que substituíam os antigos farnéis? Os pavilhões polidesportivos, auto-estradas, casas da cultura, parques industriais e tantas infra-estruturas novinhas, que brotaram por todo o lado, só se destinavam às elites?

Apesar das atoardas dos sábios, os portugueses entendem bem o longo delírio colectivo, onde todos obtivemos ganhos excelentes, pagos com dívida externa que agora temos de liquidar. O processo é difícil porque, depois de as termos, essas exigências ficam indispensáveis e inalienáveis. Mas vivemos felizes sem elas durante gerações.

É verdade que também houve erros e crimes, que devem ser punidos, e nem sempre são. Muitas vergonhas, como o BPN, continuam isentas. Também agora, neste difícil ajustamento, ocorrem novos lapsos e abusos. Mas é importante entender que tudo isso não chega para explicar um problema deste tamanho, só atingível com a participação de todo o País. Dizê-lo gera sempre a acusação injusta de desculpar os corruptos e incompetentes que nos meteram no buraco. Mas isso é tolice. Não se deseja aliviar culpados mas promover a indispensável solidariedade social no sofrimento. Não só porque realmente todos aproveitámos da longa festa, mas também porque a raiva é sempre má conselheira.

A terceira coisa que a população entende bem e tantos sábios teimam em ocultar é que revolta e repúdio da troika e dívida aumentariam a austeridade, não a reduziriam. É preciso equilibrar as contas e os milhões da ajuda permitem aliviar e adiar esses cortes que, mesmo assim, são pesadíssimos. Seriam bem piores sem apoio. Além disso, a única hipótese de o País voltar ao normal é reganhar a credibilidade e a honestidade de bom pagador.

Nem as alternativas míticas de crescimento que tantos inventam nem a revolta que levianamente insistem em antecipar resolveriam a questão. A escolha actual é entre um caminho duro e exigente, com aperto e mudança de vida, para voltarmos ao desafogo, ou o estatuto de pária internacional, aparentemente aliviado da dívida, mas deixando de ser país respeitável. Além de continuar a apertar o cinto porque, afinal, até esquecendo os juros, o Estado ainda gasta mais do que tem.

É espantoso que o povo entenda isto suportando serenamente os cortes. Mas ainda mais do que os sábios, não.

 

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Austeridade 2013 – Documentos essenciais

Tenho constatado quão difícil é encontrar os documentos essenciais sobre sobre a chamada “Austeridade” em Portugal. Fica aqui um pequeno esforço de reunião dos documentos relevantes sobre o tema em 2013:Governo de Portugal

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Austeridade Vs Rigor

José Manuel Moreira no Diário Económico:

Em tempos, Henrique Monteiro contou uma história que uso para explicar a nossa tragédia. Contava ele que na aldeia onde nasceu, na Beira Alta, havia um maluco que dizia que, se mandasse, a ruas seriam só a descer.

Os seus conterrâneos esforçavam-se logo por mostrar que tal não seria possível. Mesmo assim, o homem insistia: se for eu a mandar as ruas serão só a descer.
Ideia que, segundo um meu colega historiador, tem autoria: João Camoesas, deputado (e ministro da Instrução Pública) do Partido Democrático, que, em finais da 1ª República, terá proposto a construção de estradas só a descer para poupar nos combustíveis.

Foi então que descobri que a ilusão de que a vontade política pode mudar a realidade tem tradição. Uma tradição de visionários que deixou marca no ensino e nas demais políticas públicas. Daí as vias abertas ao crescimento sem austeridade, aos direitos sem deveres e a mais e mais despesa. Até que a realidade deu sinal de vida e os credores entraram porta adentro. Mais uma vez. Mas tal não obsta ao elogio a quem nos arruinou e ao insulto a quem empresta. Daí a acusação ao Vítor de ser um tecnocrata ao serviço de estrangeiros.

Entretanto, o País imaginário da Constituição louva-se no consenso democrático e socialista, sem se reconhecer nos interesses instalados e desenvolvidos a coberto do Estado de Bem-estar. Ou será antes de Bem-estar do Estado?

Volta e meia a malta indigna-se: “Rua com a ‘troika'”. O que faz crescer a popularidade de quem condena os sintomas e apoia as causas do nosso empobrecimento. Aqui entra a Imprensa, na disputa por comentadores com experiência política na condução por ruas só a descer. Com vivas ao consenso alargado e palco aos protegidos e medalhados do regime, agora em agonia. Será só maldade ou ignorância?

Resta – em tempo de lamento de cortes “cegos”, sem nunca se propor cortes com visão – lembrar uma senhora que foi ontem a enterrar: o melhor homem político da altura. Filha de um merceeiro metodista e de uma modista, esta nascida “em casa com carne uma vez por semana e retrete no quintal” foi, mesmo assim, capaz de desafiar as elites conservadoras. Já entre nós, os grandes merceeiros tendem ao compromisso com os bem pensantes das ruas só a descer. Daí a nossa dificuldade em compreender a oposição de Thatcher à União (UEM). E mais ainda o seu aviso de partida: “Não sou um político de consensos, sou de convicções”. Mas em Portugal persiste a ilusão e os avisos são outros: “Seguro exige a Passos e à ‘troika’ recuo nos cortes para manter o consenso.” E nem o recente aviso do primeiro- ministro da Finlândia – “não há atalhos para o céu” – nos permite ver que a superação da crise depende menos de recuos e mais de coragem para radicais cortes na despesa. Os mesmos que até agora, apesar das exigências da Troika, nunca foram feitos.

José Manuel Moreira, Professor Universitário e membro do Mont Pélerin Society

 A Esquerda usa e abusa da linguagem e há quem vá no joguinho e no consenso fácil…
 
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Publicado por em 18 de Abril de 2013 em Política, Portugal

 

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